quinta-feira, agosto 03, 2006

Brilho eterno de uma mente sem lembranças


Ele aprendeu a observá-la de longe, para que seu olhar não a machucasse. Na verdade não era o seu olhar que a machucava. Era a imagem dele. Contanto que conseguisse observá-la sem ser visto, tudo estava bem. Porque ela lhe dissera, da última vez, que a simples menção do seu nome era como cravar um pouco mais um punhal no seu coração. Viver hoje em dia era ter um punhal constantemente encravado no coração. Se ela não se mexesse muito, não respirasse, não corresse e, principalmente, não tivesse notícias suas, o sangramento poderia ser mantido sob controle. Vê-lo triste, ou alegre; sozinho ou acompanhado. Vê-lo. Tudo eram formas de desatar a sangria. Tentara manter um nível de cordialidade; tentara a agressão. Até que simplesmente desistiu de tentar. Apenas decidiu nunca mais pousar os olhos nele novamente. Não que isso cessasse a dor, mas já era um começo. Por isso ela lhe pediu que ele se afastasse e ele compreendeu e assim o fez. Porque pra ele era apenas a curiosidade em ver como ela estava e uma pequena dose de carinho. E amizade. Mas isso era uma afronta pra ela. Ser desejada por um homem e depois ter que se contentar com o seu carinho, é tudo que uma mulher não precisa. E talvez por saber disso ela também o punia com essa espécie de castigo. Mesmo sabendo que isso era ínfimo na vida dele – viver sem sua amizade – essa era a única coisa da qual ela podia ainda privá-lo e quem sabe fazer com que ele, por milésimos de segundo, compreendesse a terça parte do que ela sentia. Pois privá-lo do seu amor não representava nada para ele. Então ela acabaria com toda e qualquer possibilidade de diálogo. Porque ela sabia que ele amaria muitas outras mulheres, muito mais belas do que ela, mais inteligentes, talvez, mas aquela sensação de um completar a piada do outro, de conversas e mais conversas que não terminavam, de assuntos e mais assuntos em comum, isso ele nunca mais teria com nenhuma mulher. E essa era a sua vingança. Só ela entendia suas piadas. Só ela era capaz de antecipá-las. Mas aquilo não foi suficiente pra ele. Paciência. Resignara-se que seria impossível esquecê-lo e lutar contra só pioraria as coisas. Quem sabe uma dia, quando ela menos esperasse, alguém a faria se sentir novamente daquele jeito. Até lá, não tinha pressa. Vivia uma sobrevida amorosa. O que viesse seria lucro.

Tinha sempre a estranha sensação de que era observada por ele. Talvez fosse apenas maluquice da sua cabeça ou vontade de que ele estivesse por perto. Mas o via sempre pelas esquinas. No telefone que sempre desligava. Gostava daquela sensação de ser observada por ele. Gostava da dúvida. O problema maior era ela ter acesso a vida dele, mas não se importava que ele tivesse acesso a sua, a visse nos jornais, dando entrevistas sobre seu novo livro. Sabia que em algum lugar da cidade ele estaria vendo e estaria feliz por ela – sim, porque dentre os dois ele sempre fora mais generoso do que ela, honra seja feita. Ou talvez a amasse menos. Não sabia. Talvez a amasse apenas de um jeito diferente. Um jeito que ela nunca conseguiu compreender.


E ela sempre dava um jeito de fazer com que ele soubesse que ela sabia que ele a observava. Que ela pensava nele em todos os dias da sua vida. Que a vida seguia em frente, ela amaria outras pessoas, seria feliz, mas sempre se lembraria dele por todos os dias até o resto da sua vida. Como num jogo de gato e rato. Ou numa partida de xadrez onde não se joga só por si mesmo, mas antecipando as jogadas do adversário. Procurava pistas que a fizessem ter alguma certeza - mas não muita. E fazia pequenas homenagens a ele, seja no nome dos personagens ou na caracterização psicológica. Nem sempre de forma gentil. Mas era sempre uma maneira de dizer que ele estava presente na sua vida, embora soubesse que nunca mais ficariam juntos.

Algumas vezes tudo doía mais do que o normal. Mas fazer o quê? Todo mundo tem suas dores, suas feridas que não cicatrizam, que insistem em abrir.

Ela sabia que ele entenderia. Não era por mal que ela fazia isso. Era apenas a forma que encontrou de sobreviver. Era amor.
PS: Eu apagaria todas as minhas lembranças. As trocaria por um momento de paz.

4 comentários:

VanOr disse...

A fraternidade está no sofrimento. Sofremos as mesmas dores. Dores de amores. Como doem!

Tereza Cristina disse...

Triste e lindo!
Dores de amores doem muito mesmo.
Mas nada como novos amores...
Parece óbvio, e é!!
beijos

M.Eduarda disse...

Lindo o texto, parece ter sido escrito para a minha situação, aliás, acho que essa situação é comum a todo o ser humano que sofre de dor de amor.

beijos

Dissimulada disse...

Lindo texto, parabéns ! já fiz isso também, privar o ex da minha amizade.Por duas razões : primeiro pq nunca acreditei em convivencia com mera amizade depois de um amor verdadeiro.Amizade sim, mas de longe, espiritual. Torço sinceramente pra que seja feliz e ponto final.Já considero amizade o fato de não tentar atrapalhar. E segundo, não gosto nada , mas nada mesmo de me coçar com urtigas.(rs)