quarta-feira, julho 26, 2006

Cota da minha paciência


Hoje presenciei uma animada discussão sobre a questão das cotas para negros nas universidades e iniciativas como o Prouni, que visa dar vagas em universidades particulares a pessoas de baixa renda – vagas, estas, que serão “compradas” pelo governo, mascarando, no fim das contas, uma política de incentivo fiscal governamental em instituições privadas. Pessoas “inteligentes” em um lugar “inteligente”. Chamarei-os de A, B, C e D.

(Antes de tudo eu queria dizer que eu sou radicalmente contra a política de cotas, seja ela qual for – cotas pra negros, cotas pra negros oriundos de escola pública, cotas além das vagas que já existem, realizando uma expansão da universidade...)

Para figura A, tanto posições que condenam a política das cotas baseadas em uma idéia de universalismo – somos todos iguais e todos temos acesso - , quanto aquelas que a defendem ancorados na sua justificativa em si mesma – temos uma dívida histórica para com os negros e só isso já bastaria - são errôneas. A primeira porque parte de uma falácia, já que dizer que “todos são iguais perante a lei” só pode ser, na melhor das hipóteses, ingenuidade (e na pior, mau caratismo). Segundo A, esta reflete o medo por parte de uma elite em ver a massa entrando na universidade e tomando posições que ela ocupa (mais uma vez, baseado numa idéia de que quem estuda em federal é rico. Bom, não sei de onde as pessoas tiram isso. Tirando cursos caros e integrais como medicina, odonto e direito, universidade federal tem classe média e pobre. Rico estuda na PUC). A segunda posição não se justifica pois não resolve um problema. Para figura A, a resposta seriam cotas além das vagas que já existem, aumentando este percentual gradativamente, fazendo assim com que a universidade se expanda. Fiquei chocada com uma estatística fornecida por A (não sei de onde foi tirada e nem se é verdadeira). Em toda a América Latina, o percentual de estudantes em curso superior é de 20% a 30%. No Brasil não chega nem a 10%, sendo que, desses, grande parte está em universidades privadas.

A figura C - que é negra - pede a palavra. C desce o cacete nos movimentos negros, lembrando o óbvio: existem movimentos negros de esquerda e movimentos negros de direita (as pessoas costumam achar que, por serem “minorias” são, necessariamente, de esquerda – o que quer que signifique aplicar o termo “minoria” ao referir-se a negros num país onde mais da metade é negra). C fala que dar cotas não resolve nada. É preciso fazer cotas em concursos públicos e outras ações afirmativas que pensem em políticas de inclusão do negro no mercado de trabalho como um todo – coisa que, segundo C, o movimento negro não faz devido a sua heterogeneidade. C lembra ainda que parte do movimento negro acredita numa formação de uma elite negra que lutará pelos direitos de todos (você já viu essa história de Teoria das Elites em algum outro extremo oposto, leitor? Eu também. E também na tal da “ditadura do proletariado” – volto a dizer: se alguém me convencer como uma ditadura DO proletariado não será SOBRE o proletariado eu juro que eu viro marxista e vou pra Cuba defender o regime). Oquei, os mais puristas dirão que estou colocando diferentes doutrinas num mesmo saco de gatos. Não é essa minha intenção, mas salientar a base de todas que é: classes mais capacitadas em saber o que é melhor para o povo, sejam elas a burguesia ou o proletariado. Tô fora.

A figura D - que é branca - pede a palavra. D desce o cacete na política das cotas e lembra que não basta deixar o cara entrar na universidade. É preciso dar condução, moradia (lembrando que a Casa do Estudante da UFF foi desalojada pela nossa querida governadora cujo nome eu me recuso a pronunciar e estes acampam no campus do Gragoatá), dinheiro pra comprar livros e/ou xerox (Biblioteca?? Há há há há...) e bandejão (o da UFF ficou uns seis meses fechado).

Comentário meu: só pra se ter uma idéia, quase 100% das pessoas que entraram pra medicina na UFF pelo sistema de cotas abandonaram o curso por não terem essa infra-estrutura (lembrando que medicina é um curso integral, onde não é possível trabalhar e estudar).

D fala ainda que, qualquer pessoa que trabalhe com educação sabe que os alunos chegam cada vez mais mal preparados na universidade – independente se são brancos ou negros. E que os alunos não só não se preocupam com o fato de não saberem nada como também se sentem à vontade para agredir o professor (sim, caros leitores. Fisicamente, inclusive). Enfim, D toca o dedo na ferida, fala de tudo que realmente importa e, talvez por isso, é sumariamente ignorado.

B fala. B é negro. B rebate às críticas de C de que o movimento negro é muito heterogêneo, dizendo que todos os movimentos são heterogêneos (pensei comigo: uma coisa é que cada ser humano tenha as suas singularidades e um movimento social reflita isso. Outra, completamente diferente, é dizer que um movimento que prima pela defesa de uma homogeneidade – a do negro – ser heterogêneo. Aí comprica). B diz ainda que outras ações afirmativas por parte do movimento negro estão sendo feitas (Onde?! Onde?! Cadê?). B ignora todas as questões propostas por D.

Não quero falar. Não vou falar. Afinal, eu e minha cutis irlandesa, aveludada e tratada a litros de ácido retinóico, logo seríamos chamadas de pequeno-burguesas. Mas não resisto interromper B e perguntar só um detalhe: você já trabalhou em uma instituição de ensino superior privada? B responde que sim. Calei-me. Pensei comigo: então você é realmente idiota.

Pois qualquer pessoa que tenha trabalhado numa instituição de ensino privado superior sabe que a barbárie existe. Não falo por todas as instituições, mas por algumas que eu conheci bem de perto. Devem existir exceções. As pessoas me perguntam: mas é tão ruim assim? Eu digo: não. É muito pior. Claro que tive excelentes alunos. Um ou dois por ano. E vários bons. Mas a grande massa é assustadoramente ignorante. E o pior não é a ignorância em si. Mas é a certeza de que não vale à pena sair desse estado. Nas universidade públicas o nível também cai cada vez mais, mas pelo menos existe como reprovar o aluno e incentivá-lo um pouco mais a estudar. Numa universidade particular isso não existe, pois o aluno é tratado como cliente – e o cliente, tem sempre razão. Ou você aprova todo mundo ou em breve será demitido. Negocia-se na melhor das hipóteses. Pois o professor se tornou refém. O aluno não sabe, não quer saber e tem raiva de quem sabe.

A política de cotas vai fechar o caixão da universidade pública. Vai criar uma espécie de sub-emprego entre os que fizeram universidade a partir de cota ou não.

Eu não sei o que precisa acontecer nesse país pra que as coisas mudem. Guerra civil? Luta armada? Sinceramente, votar na Heloísa Helena pode ser o menos pior. Mas eu tô cansada de ter o menos pior na minha vida. Por isso, até agora, meu voto nas próximas eleições continuará nulo. Pode ser que eu mude. Ainda estou estudando as opções e não tenho problemas em mudar de idéia. Porque existe política além do voto. Tem que existir. Vamos encerrar essa etapa da história.

13 comentários:

déco disse...

ah eu sou a favor da cota pra quem nunca teve condições de estudar, pra quem tem que trabalhar e ajudar no sustento de casa, pras pessoas sem a menor perspectiva..., sei-lá...

;)

déco disse...

então, eu nunca escrevi e nunca fui muito de ler. estou começando, apanhando muito...rs, aceito ajuda e sugestões, tks

bjo

Carrie, a Estranha disse...

Escrever se aprende escrevendo. E lendo. Muito.

bjs

Mr. Durden disse...

É claro que existe política além do voto... Gostei da análise sobre as cotas... escrevi algo semelhante em um fórum da vida... outro dia...

lau disse...

a sua análise é irretocável.

Celso disse...

Carrie,

O que você escreveu é exatamente o que eu já disse uma vez, numa Assembléia na Unirio, em 2004, quando vários professores da FAculdade de Direito, todos brancos, defendiam a cota racial como uma reparação histórica. Na ocasião, eu peguei o microfone (adoro fazer isso em público) e mandei ver meus comentários, e destruí o discursinho deles. Sou radicalmente contra esta loucura das cotas.

Politicamente, tenho atração por candidatos que defendam o liberalismo e o capitalismo. Não acredito em quaisquer discursos socialistas, pois sei muito bem no que deu o socialismo. Li muito Marx, que, por sinal, escreveu muita besteira mesmo. Mas, bem, naõ vou ficar aqui discutindo com você, pois você é uma intelectual, no sentido de que vive disso, e eu não. Minha praia é outra. Apenas, mesmo entre os candidatos da direita, estou tendo problemas em escolher algum.

Gosto muito do Alckmin, mas o "choque de gestão" que ele tanto promete é apenas um telhado de vidro estilhaçado pelas rebeliões dos presídios comandados pelo PCC. Logo, acho que mesmo o Alckmin não tem muita moral para criticar essa besta quadrúpede que está no poder atualmente.

Logo, tá muito difícil mesmo votar em alguém neste ano. Lembro com carinho da campanha de 1989, de um candidato que depois se retirou da vida política: Guilherme Afif Domingues, na época do PL.

De qualquer maneira, um forte abraço e continue escrevendo, pois você também é boa naquilo que faz.

Carrie, a Estranha disse...

Agradeço aos comentários de todos e espero q tenha servido pra alguma coisa,

Celso,
Adorei a história de pegar o microfone e "destruir o discursinho deles". Tb adoro fazer isso! Rsrsrs...

Há marxistas e marxistas. O q já existiu em termos de socialismo no mundo está muito, muito longe do q Marx dizia. Eu, particularmente acho o cara foda. Claro q nem tudo q ele escreveu é perfeito, mas acho q o principal problema reside nas interpretações q fizeram dele. Mas acho q o pensamento dele continua válido pra servir de plataforma pra entender muita coisa e mudar muita coisa. Mas sem dúvida algo de novo tem q ser pensado.

Tenho problemas com o liberalismo e o capitalismo no que tange à questão da democracia. Acho problemático se afirmar q a maior conquista do liberalismo é a democracia. Acho q novas formas de democracia devem ser pensadas. E tenho sérios problemas com o fato dos liberais acharem q o capitalismo é inexorável e irreversível.
Mas gostei de ouvir suas idéias. Continue vindo e participando.

Bjs e abs a todos

Carrie, a Estranha disse...

PS: Não sei se sou intelectual. Por enquanto sou apenas uma estudante de doutorado de 29 anos...mas qdo eu crescer, espero ser uma intelectual! Não no sentido do intelectual q fica enclausaurado na sua torre de marfim, como diria Machado, mas alguém q vive de e pára pensar e produzir inquietações e reflexões nos outros pra q dessa forma a vida se torne menos dura...

Léo disse...

"somos todos iguais", mas alguns são mais iguais que os outros.

Relacionando o que eu disse naquele post, como o que vc escreveu. Pobreza existe em todos os lugares, é um conceito relativo. Você não precisa trabalhar para ficar rico, apenas para ter uma boa condição de vida.

A questão é que a mentalidade do periférico é a de terminar o ensino médio, arrumar um emprego, comprar um carro e sair comendo todas as vadiazinhas por aí.

Alguns raros, querem fazer faculdade, mas com a base que tem, fica complicado. Não só a base escolar, mas a educação dos pais.

E esse é o problema do país: educação. O país pouco investe em pesquisas, a educação é uma merda. Enfim, vamos continuar exportando matéria prima para os mais ricos e sendo um país agrícola.

jh disse...

eu sou...

pelo fim do vestibular,
pelo aumento de vagas,
pela melhora do ensino médio e fundamental,
por mais públicas,
por mais cursos noturnos...

só pra começar.

abs/bjs

aliki disse...

Carrie, eu vou votar aqui nas oropas aonde vivo há tanto tempo, que são posts como este seu que me dâo uma idéia mais concreta do que pode ser feito ou não, inclusive de fora. Adoro ler o que aqui encontro.

déco disse...

que legal que vc gosta de jazz, eu adoro... Vc está no orkut? o meu link do orkut está no profile do blogger, Minha página da Web...

;)

Joana disse...

concordo com meu pai (lau), sua analise foi perfeita, muito bacana!