segunda-feira, junho 19, 2006

Merda alheia

É impressionante como o ser humano tem a capacidade de fazer merda atrás de merda na própria vida, permanecer nela e justificá-la pra si mesmo e pros outros com argumentos que ele mesmo recriminava. Aquelas pessoas em quem você mais acreditava, de repente, sucumbem.
Sei que um certo grau de hipocrisia é necessário pra sobrevivência. Todos precisamos da porra do verniz social pra que não mandemos os amiguinhos à merda diariamente nem metralhemos 15 num MaC Donald's. Mas há limites. Sim, há limites. E quando esses limites são ultrapassados resta a dúvida: falar ou não falar? Quem sou eu pra falar, quando eu mesma repito tais comportamentos? Quando falam comigo, adianta? E por fim: alguém pode, realmente, influenciar o outro?
Como não falar quando você vê um amigo caminhando lenta e inexoravelmente rumo ao abismo? Falar o quê? Alguns casos são mais claros: é uma merda concreta; um tijolão de merda fedendo aos olhos e narizes de todos. Outras merdas são mais sutis, gelatinosas e com um cheiro não tão fétido - e daí você fica em dúvida se é de fato uma merda. Merdas relativas. E você pode estar apenas se metendo e ganhar o ódio do seu amigo.
A vontade de falar com a pessoa não é apenas "pelo bem". É também fruto do mais puro egoísmo. Às vezes a merda alheia nos assusta porque nos vemos nela. Falamos pro outro, mas na verdade falamos de nós mesmos.
O "fazer-merda" tá quase sempre ligado a perda do frescor ou a tentativa de manutenção dele por meios ineficazes. É difícil pra caralho manter a porra do frescor. Temos que reinventá-lo a cada dia, de um jeito só nosso. Mas as pessoas preferem as fórmulas prontas e saem fazendo o "que todo mundo faz": casam-se com quem não gostam, porque "tá na hora"; bebem, cheiram ou qualquer outra coisa que os faça sair do registro cotidiano; têm filhos só por ter; viajam só por viajar, porque é o que todo mundo faz; acostumam-se com seus empregos garantidos e contam os dias pro final de semana, feriado, férias... e assim caminha a humanidade. A passos de formiga e sem vontade. De vez em quando um ou outro surta, mas e daí? No geral, dá certo. Eu já agi - e ainda ajo - inúmeras vezes assim.
Dizer o quê? "Não faça isso, a vida é bela"? "Alguém muito especial está sendo guardado pra você"? Se as alternativas são pessoais, como mostrá-las ao outro? Ser amigo é respeitar as decisões dos amigos, ainda que elas sejam se atirar da ponte com um explosivo amarrado ao corpo? Sim, acho que sim. Isso não quer dizer que eu concorde. Mas acho que ninguém perguntou o que eu achava.

3 comentários:

Mi disse...

Tive q ciar um blog para mim para poder postar este comentário. Mas vale a pena, pq ao ler este texto revi toda nossa conversa em Andrelandia na pracinha e me sinto exatamente como vc, pq cada dia mais me vejo com pés e mãos atadas com relação a certas atitudes q considero "fugas suicidas". Mas, como vc mesma disse, tenho q estar ao lado e apoiar na alegria e na tristeza. bjinhos

Carrie, a Estranha disse...

Não!! Como assim?? Não é preciso criar um blog pra fazer comentários. Esse sitema de comentários é ainda mais simples!! Não me deixe em pânico!!

DMM disse...

Li, e vou reler novamente. Quem sabe eu capto melhor sua mensagem? Entendo todos vcs, meus amigos, mas queria que vcs vissem a história do meu lado. Mas isso nunca será possível.