sexta-feira, junho 30, 2006

Deus salve todas as pessoas estranhas...

Durante o almoço animou-se um pouco a conversa entre mr. Middleton e Phyllis, enquanto os mais velhos, em sonoras vozes profundas, diziam banalidades. Rosamond se manteve meio calada, como de seu hábito; a especular sutilmente sobre o caráter do secretário que poderia vir a ser seu cunhado; e a conferir certas teorias que ela então já fizera a cada nova palavra proferida por ele. Mr. Middleton, por franco consentimento, não passava de uma brincadeira da irmã, que se atinha aos limites. Se alguém conseguisse ler os pensamentos de Rosamond, enquanto ela escutava as histórias de sir Thomas sobre a década de 1860 na Índia, constataria que ela andava ocupada com cálculos de certo modo abstrusos; o Middletonzinho, como o chamava, não era lá de todo mau; tinha a cabeça boa; era bom filho, ela o sabia, e daria um bom marido. Além do mais, era abastado e faria sucesso na carreira. Mas dizia-lhe sua agudeza psicológica, por outro lado, que ele era curto de espírito, sem um pingo de imaginação ou de intelecto, no sentido em que isso era entendido por ela; conhecia muito bem sua irmã para saber que ela nunca amaria este homenzinho ativo e eficiente, embora fosse capaz de respeitá-lo. Era esta a questão: deveria casar-se então com ele? E esse era o ponto a que chegara quando lord Mayo foi assassinado;2 enquanto seus lábios murmuravam ohs e ahs de horror, seus olhos telegrafavam pela mesa: ''Fico na dúvida''. Se ela houvesse feito que sim com a cabeça, sua irmã já teria passado à prática daquelas artes pelas quais tantas propostas se têm consolidado. Entretanto Rosamond, sem saber ainda o necessário para tomar decisão, mandou um telegrama bem simples: ''Continue a jogar com ele''.

("Phillys e Rosamond" in WOOLF, Virgínia. Contos completos. São Paulo: Cosac & Naify, 2005)

2 comentários:

sergio millan disse...

Janelas, janelas, janelas. Um barato isso de universo on line. Não costumo frequentar blog, muito menos entrar nos comments, muito menos ainda comentar, imagine, fazer comentários na janela aberta noutro blog dentro do 1º, doido, doido, doido. Acho que acabo de entrar pra galeria dos seus esquizoides. Mas ainda não quero essa honra não, Carrie, vim aqui por curiosidade pelo nome e seus comments no Blog da VanOr, daí quis dividir com vc esse outro personagem: http://www.revista.agulha.nom.br/ag4villon.html , vê se ele não merece a honra. O texto parece grande, mas só até o biografo te conquistar, Beijos.

Carrie, a Estranha disse...

Boa história, a desse Francois Villon, meu caro. Boa história. Gostei. Obrigada.