domingo, fevereiro 14, 2010

Outros carnavais.

Eu não sou saudosista. Não mesmo. Tenho saudade de algumas coisas, óbvio, mas nunca nesse tom de “naquele tempo era melhor”. Mesmo porque eu sou muito nova pra isso. Se bem que isso não tem nada a ver com a idade. Tempo houve em que eu achava que certas coisas do passado eram melhores. Hoje não. Hoje eu compreendo o presente como um devir dialético onde as coisas são melhores E piores AO MESMO TEMPO; ou talvez são melhores PORQUE piores – e vice versa. Se você tá vivo, seu tempo é hoje – como diz o Paulinho da Viola. Não me venha com essa de “eu não tenho mais idade para...”.

Isto posto, gostaria de relembrar de alguns carnavais. Não com o tom de “aquilo sim é que era Carnaval”, mas no tom de lembrança doce e querida, que o tempo não apagou, mas não volta mais - inclusive de muitos que já se foram. Estes carnavais não são expressivos da cultura brasileira, nem muito menos entram nos anais de festas famosas. Eu já devo ter escrito textos semelhantes a este, mas como eu sou a soma de minhas obsessões, como diria Nelson Rodrigues, vamos lá outra vez.

As pessoas me perguntam se eu gosto de carnaval. Não. Não gosto. E talvez nunca tenha gostado. Porém, passei incríveis carnavais, que ficaram pra sempre na minha lembrança. Todos eles tiveram como palco a cidade do meu coração: Andrelândia. O que eu gostava era dos Carnavais da minha infância e adolescência.

Minhas lembranças começam comigo ainda criança, sendo vestida pelos meus pais de fantasias como esta.



(Olha o ânimo)


Lembro-me também de uma de baianinha, que me incomodava horrores, porque tinha um turbante e argolas, ainda menorzinha – e eu sempre tive muita aflição de coisas que se dependuram em mim, além do tecido altamente pinicante dessas roupas. Meus primos, fiéis companheiros de aventuras infantis (e juvenis), Juninho e Serginho, trajavam uma fantasia de macacão de posto de gasolina. Na ocasião eles tinham o cabelinho escorrido, cortado estilo cuia, e um era lourinho e outro moreninho. Então tá lá eu, que nem a Dona Flor, rodeada por dois frentistas: um moreno e outro louro (tentei achar estas fotos, mas não consegui. Desconfio que devam estar em Andrelândia).

E como se não bastasse o suplício de ser fantasiada eu era obrigada a ir para as matinês do Campestre Clube de Andrelândia. Que no final das contas acabava sendo bom. Me pergunto se, quando tiver um filho(a) terei paciência de levá-lo(a) às matinês e se ele será tão anti-social na infância quanto eu fui. Como a genética gosta de pregar peças periga ele/ela ser um verdadeiro passista mirim. Deixarei a cargo dos meus irmãos mais carnavalescos, bem como outras atividades das quais não participo, como por exemplo, o futebol.

Voltando a nossa história, me lembro de uma era pré-adolescência, talvez 10, 11 anos, onde eu já havia me rebelado contra as matinês, mas ainda não tinha idade suficiente pra ir à noite ao clube. Então o legal era fica na pracinha, em frente a casa das tias, brincando e ao mesmo tempo participando da festa dos adultos. Nessa época havia escolas de samba em Andrel, e meu finado pai, assim como o finado seu Haroldo (namorado da minha tia Deceles, mas ela fingia pra todo mundo que era só amigo) vinham na comissão de frente, da velha guarda da escola.

Logo mais, entre as passistas, vinham minhas primas mais velhas, Maysa e Letícia, e minhas irmãs (a-há! Te entreguei, Formiga Irmã!) e também nosso primo em segundo grau e Highlander Paulo Vitor. E eu assistia com fascínio a minha tia Tatá maquiando todas elas, pregando lantejoulas, passando purpurina e as transformando em alguém diferente.


Era também nessa época que saía a saudosa – e igualmente finada – tia Kaká, mãe de Juninho e Primo Poeta, como destaque de carro alegórico. Certa ocasião ela colocou Primo Poeta pra desfilar junto com ela. Ele, então, bem pirralhinho.

A sapucaí andrelandense passava em frente à casa das tias – tudo acontece em frente à casa das tias – portanto o camarote VIP era lá. Como diria meu também finado tio Guido: “o andrelandense assiste escola de samba como quem assiste a uma procissão”. Contrito, alheio e em reverência - e não efusivo como o carioca. Talvez ele tenha a certeza de que aquela alegria toda não lhe pertence. Talvez venha daí minha sensação de não pertencimento ao Carnaval.

Depois já me lembro dos carnavais da adolescência, com a casa da Dani como QG, e das nossas (das meninas) fantasias em grupo. Punks (um shortinho que todo mundo confundiu com as paquitas, mas era punk, porra!) e diabinhas (como nêgo deixou a gente entrar no clube com um tridente de metal, verdadeira arma pra adolescentes bêbados?). Sim, estamos falando de uma época onde adolescentes entravam sem qualquer problema em bailes de adultos e compravam bebida com a maior facilidade. Então a gente se arrumava/bebia na casa da Dani, depois saía.

Mas, me adianto. Antes de falar do clube, é importante falar do carnaval de rua. Antes de ir para o Campestre, ficávamos nos bares da cidade ao redor da avenida onde passavam as escolas, bebendo. E ali também saíam blocos de carnaval. E os meninos, nossos amigos, se vestiam de mulher, cabendo às garotas ajudá-los no empréstimo de itens femininos e maquiagem, bem como no manuseio desta. Não entrarei aqui no fascínio exercido pelos homens em se vestirem de mulher no carnaval. Às vezes as meninas se vestiam de homem, mas não era tão legal quanto o inverso.

Havia o bar do Dito, onde se vendia a tradicional Bomba. A Bomba do Dito era uma bebida composta de sete bebidas alcoólicas diferentes + coca cola. Cachaça, vodka, rum, menta, conhaque, campari e martini (será que acertei? Ajuda aí, gente. Devo ter errado um ou outro ingrediente). O final era um gostinho adocicado de coca misturado com menta. Vinha num copão de plástico. Você tomava e não sentia nada. Aquilo descia que era uma beleza. De repente ela explodia no seu estômago. Duas desta era suficiente pra derrubar os mais ferrenhos beberrões. E quase sempre a gente dividia, porque era muita coisa.

A bebida, assim como tudo o mais, tinha suas modas. Teve a época da Marconha (martini + conhaque) e a época do Steinhager com cerveja. Mas sempre houve espaço para os clássicos – cachaça e coca cola.

É dessa época, também, minha parca experiência como entorpecentes inalantes, como loló, lança perfume e benzina (praticamente cola de sapateiro). Pensar que já teve gente morrendo cheirando desodorante...tsc, tsc, tsc...ah, a inconseqüência da juventude!

Então a coisa era ficar bebendo, acompanhar os blocos (sair em alguns, até) e depois ir pro clube. Cada ano tinha um novo bloco, mas sempre teve o tradicional Bloco da Cebola - formado por turcos, em sua maioria. Nessa época a praga do axé (que meus alunos de antropologia não me ouçam, porque como acadêmica eu posso até ser contra a proibição dos bailes funks e dizer que todos os ritmos são expressão genuína do povo, mas como ser humano eu tenho o direito de odiar) ainda não tinha invadido o sudeste e nessa época carnaval era só marchinha e algum samba enredo. Tanto na rua, quanto no clube.

Teve um Carnaval em que o finado (morto há dois anos num acidente de carro estúpido) amigo Reinaldinho (que era de Santos, mas se mudou pra Juiz de Fora e morou um tempo em Andrel) abriu um bar do lado da casa dele, onde era a lojinha do seu Odilon, avô dele, também em frente a pracinha. No bar dele só tocava Ramones. Passamos um Carnaval inteiro ouvindo Ramones. O que era ótimo, porque ninguém fazia muita questão de samba e também espantávamos outros clientes e o bar ficava praticamente por nossa conta.

Os bailes tinham intervalo pra banda. Neste momento passava o fotógrafo oficial, que no dia estaria expondo as fotos na pracinha, pra quem quisesse comprar, em forma de monóculos (aquela caixinha, só com o negativo). A gente comprava ou quando a foto era muito boa ou quando era muito vexamosa, a fim de eliminar provas. Era um tormento acordar de ressaca e ter que correr no lambe-lambe pra comprar a prova do crime, antes que a cidade toda visse – namorado(as), pais, etc.

Aí a gente aproveitava pra tirar as fotos da turma. Sim, eu tinha uma turma. Enorme, flutuante, mas com um núcleo central que permanece vivo até hoje.

O baile acabava lá pelas cinco horas da manhã – ou seis, se fosse o último dia. Aí a gente ia embora, a pé – o clube deve ficar há uns três quilômetros do centro da cidade. No último dia, a banda saía junto. Aí tinham as canjas na casa do Gustavo. Gustavo era – e ainda é – nosso amigo de Petrópolis, responsável por trazer os meninos mais bonitos pro Carnaval. Acho que já comentei aqui sobre este meu amigo. O Rodrigo Santoro era conhecido dele – não, o Santoro nunca foi em Andrel, infelizmente – e, na boa: perto dos amigos dele o Santoro era pinto. Eu não sei o que é que o povo de Petrópolis é tão bonito. Mas eram uns meninos lindos – incluindo meu amigo Gustavo (com todo respeito), que hoje é médico, casado, mora em Brasília e tem uma filhinha linda de uns dois anos. Que, evidentemente, nunca me deram a menor bola, porque eu sempre fui a “inteligente-e-legal” ou a "amiga-engraçada".


A canja na casa do Gustavo se estendia até umas seis, sete, oito horas, dependendo do grau etílico. Sim, porque alguns continuavam a beber, mesmo na canja. A gente entrava, se servia e ia comer sentados na calçada. E todo mundo ia entrando e se servindo. Você não precisava ser amigo do Gustavo. Mas era todo mundo conhecido. Às vezes era um amigo que chamava o amigo que chamava outro. Alguns passavam em casa pra pegar prato e colher, pois era muita gente. Quem fazia a canja era a finada Dona Célia, avó do Alex, cozinheira e quituteira de mão cheia da cidade.

Depois dessa época boa de Carnaval, passei ainda alguns carnavais em Andrelândia, mas já eram outros carnavais, bem diferentes destes que eu descrevi. Passei também em Diamantina, em Ilha Grande e alguns no Rio. Todos muito bons. Diamantina é um mega-Carnaval onde você não dorme nunca, com várias bandas tocando, gente-bonita-azaração. Pra quem gosta, é um prato cheio. Bahia, nunca tive disposição.

Mas o fato é que nunca mais eu tive carnavais como aqueles. Ôpa, Carrie! Olha o saudosismo aí! Não estou sendo saudosista, caro leitor. Saudosismo é quando idealiza um passado, achando que só ali foi feliz. Eu não estou dizendo isso. Eu não quero voltar no tempo – ok, talvez uma única noite, tipo Peggy Sue, pra reencontrar todos esses finados citados. Mas eu não acho que meu Carnaval foi melhor do que o de ninguém. Nem que os Carnavais de hoje, com axé e funk misturado, não tenham a importância para quem os vive. Só que eu estou falando de uma parte da minha vida que eu vivi - muito bem -, mas que não volta mais. Onde a ansiedade e expectativa eram intensas. Onde você contava os dias pro Carnaval e fazia planos e organizava fantasias. Onde havia gente interessante o suficiente para você querer beijar mais de um por noite e as histórias eram sempre hilárias e rendiam assunto até o próximo feriado. Onde eram tantas as coisas a se experimentar e tudo era tão novo que eram realmente os quatro dias mais esperados. E depois que chegava, passava tão rápido! No último dia, quando você ouvia, “ai, ai, ai, ai...tá chegando a hora...” já batia aquela depressão. E, no meu caso e de muitos amigos que não moravam em Andrelândia, era pior ainda, porque você sabia que precisava esperar a Quaresma inteira pra vir o feriado de Semana Santa e você voltar e encontrar todo mundo.

Carnaval tinha gosto – além da bomba do Dito - de novidade. De surpresa. E ao mesmo tempo, de familiaridade. De se sentir em casa. De saber que você podia beber até cair, que alguém te catava e te entregava em casa. Os carnavais de blocos do Rio de hoje em dia tentam reviver essa coisa das marchinhas e do carnaval de rua, esse clima família, o que eu acho muito bom, mas...me incluam fora desta. Foram Carnavais de “Anos incríveis”. Simplesmente pela conjunção de pessoas e lugares que é impossível retornar. Então eu prefiro honrar o meu passado, não fazendo dele um pastiche ridículo, fingindo uma animação que um dia eu tive para o Carnaval. Eu nunca fui animada para o Carnaval. Eu era animada para aqueles carnavais. Aguardo alegrias sinceras e verdadeiras, como diria minha tia Dedinha, mas em outras datas. Como as dos meus antigos Carnavais.

8 comentários:

Paula Clarice disse...

Me emocionei de chorar, Carrie. Um beijo.

tereza disse...

Gosto muito de ler os seus textos. O seu humor é ótimo.beijos.

ila fox disse...

Adorei a teoria do seu tio Guido! foi muito legal ler sobre seu carnaval!

Realmente, algumas coisas do passado tem gostinho especial, eram outros tempos, outro contexto de vida... hoje não é melhor nem pior, só é diferente.

Carmen disse...

Menina, emocionante mesmo...dei uns 5 suspiros durante a leitura.Também tenho boas lembranças da minha infância carnavalesca, talvez tire algumas do fundo do baú da memória para escrever, rs.

Carrie, a Estranha disse...

Oi Paula Clarice,

Chora, não.

Tereza,

Muito obrigada.

Ila,

Sim, meu tio Guido tinha grandes teorias.

Carmen,

É bom lembrar.

Bjs

Júlio César Meireles de Andrade disse...

Melhor do que aqueles carnavais, só mesmo os seus textos sobre aqueles carnavais.
Esse é o verdadeiro dom de quem escreve: transformar o que foi bom em algo melhor ainda.

Beijos e saudades

Carrie, a Estranha disse...

Cósnis,

Saudades. De tudo.

Bj

Milema disse...

Olha. Quase chorei tb. Me emocionei. Tenho tanta sdd tb dessa época.
Esse carnaval msm, eu estava em Andrelandia e fiquei observando as pessoas e as músicas. Eles nunca saberão o q vivemos e como era bom. Eles se divertem, pq é o que eles tem.
Mas carnavais iguais aqueles. Sei lá. Acho difícil.
Bjos