terça-feira, janeiro 05, 2010



Por falar em livro que eu escondo a capa, acabei de ler a biografia – melhor seria: as memórias – da Elizabeth Kübler-Ross, uma psiquiatra que estudou a morte por anos a fio. Ela criou as clássicas 5 fases para lidar com o luto: negação e isolamento; raiva; barganha, depressão e aceitação - e luto entendido como qualquer perda, não apenas a morte. Ela passou anos desenvolvendo estudos com pacientes terminais e deu seminários por todo mundo para profissionais da área de saúde. Ela inaugurou uma nova forma de se trabalhar com doentes terminais. Descobriu o óbvio: que muitas vezes olhar no olho do paciente, conversar e ver o que ele tem a dizer valem mais do que um medicamento. Muitas vezes é melhor deixar o paciente morrer em casa do que impor-lhe uma morte impessoal em um hospital, cheio de tubos e agulhas e luzes. Não que não se deva tentar buscar auxílio, mas ela defende uma abordagem menos “esterilizada” da morte e, por isso mesmo, mais humana. Austríaca, ela trabalhou na reconstrução da Polônia depois da 2ª GM. Uma incrível história de vida. Trabalhou com crianças aidéticas, quando a AIDS ainda era um bicho papão. Fez um centro para crianças aidéticas no Mississipi e a Ku Klux Klan queimava cruzes no jardim dela toda noite. Recebeu inúmeras ameaças de morte, até que teve sua casa incendiada e mudou-se de lá. Fiquei pensando no meu pai, cuja visão da medicina sempre passou por olhar os pacientes como seres humanos e não como pedaços de carne (minha irmã conta que leu algumas partes deste livro pra ele, quando já estava doente, mas ele pedia pra pular quando ela começava a falar muito de morte). Hoje em dia os estudantes de medicina escolhem suas especialidades baseado em “o que dá mais dinheiro” ou “o que é mais fácil passar na residência”. Quem já não passou a experiência de ir a um médico bam-bam-bam e o cara te tratar como se você fosse um sofá e, ao contrário, muitas vezes encontrar as respostas em um médico nem tão famoso, mas que sabe ouvir?

O livro se chama “A roda da vida”. A partir de determinado momento ela começa a investigar a vida após a morte e as chamadas experiências de quase-morte. Gente que “morreu”, viu parentes mortos, túnel de luz e depois “ressuscitou” através de aparelhos ou outros procedimentos médicos. Ela entrevistou pessoas pelo mundo todo e comparou experiências. Além disso, ela mesma passou por uma “viagem extra-corpórea” e em outra ocasião “morreu” para depois voltar.

Não preciso nem dizer que a comunidade científica cair de pau em cima dela. Como se não bastasse, ela conta no livro que se envolveu profissionalmente com um casal de médiuns que descobriu ser uma fraude, além de suspeitar que eles tramaram três atentados contra a vida dela – felizmente todos fracassados. Têm outras experiências bastante perturbadoras no livro dela, como relatos de pessoas mortas que voltam pra falar com ela e, até mesmo, a aparição de Jesus Cristo em pessoa. Nessa hora eu realmente achei que ela foi um pouco além da conta.

Independente de se acreditar ou não e sem querer criticar a religião de ninguém eu acho que experiências religiosas, assim como experiências sexuais, não são assuntos para serem comentados por aí. É uma coisa muito íntima. Crença religiosa é uma coisa que você só pode desenvolver mediante sua própria experiência. Misturar medicina e religião, assim como a religião querer opinar sobre assuntos fora de sua competência como pesquisas médicas, por exemplo, não me parece uma boa ideia. Ao mesmo tempo entendo que é complicado você falar com uma pessoa que conversa com gente morta como conversa com você ou comigo que ela não deve falar disso. Para ela aquilo é uma realidade tão concreta quanto este computador é pra mim. A pessoa tem tanta certeza disso que pra ela não tem problema algum. Eu conheço pessoas super equilibradas, cuja convivência de longa data me faz crer que não se tratam de psicóticos e que “see dead people” all the time.

Enfim, só quero dizer que se você é médico deve ter um pouco de cuidado caso veja Jesus Cristo e não sair comentando isso por aí, porque é óbvio que vai botar dois terrenos quase sempre antagônicos – religião e ciência – em confronto. E um dos lados vai sofrer a conseqüência. Obviamente não vai pegar bem – além do que eu sempre acho que JC deve ter mais o que fazer.

Agora vou ler “Sobre a morte e o morrer”, livro mais famoso dela onde ela fala sobre as cinco fases de luto e, ao que tudo indica, não toca no tema religião.

Eu também acho muito engraçado porque pessoas não religiosas falam tanto sobre religião. E sempre com o senão: “eu não sou religioso, mas...”. Acho o ateísmo uma das religiões mais radicais que já surgiu. Já viram os livros do Richard Dawkins? O cara é praticamente um profeta. Fez mais por Deus e as religiões do que muito padre.

Sei lá, acho que as pessoas todas – crentes, não crentes; de diferentes religiões – ainda são muito intolerantes com as crenças alheias. Eu mesma sou bastante reticente em se tratando de muitas religiões. Acho muito difícil ser amigo de uma pessoa Testemunha de Jeová, por exemplo. Logo, posso falar que respeito todas as religiões? Acho que não. Mas eu me esforço por tentar compreender e ter um pouco mais de tolerância.

Mas uma coisa é fato: eu realmente adoro o tema.

19 comentários:

ila fox disse...

Ótimo post Carrie.

Falando em médicos, estes dias li que tem aumentado a quantidade de erros médicos.

Imagino que muitos estudantes entram nessa porque a) uma profissão de status, b) tenho médicos na familia então as portas se abrirão para mim, c)adoro esta profissão, nasci para isso.

Infelizmente cada vez menos tem escolhido a c)... :-(

*

Eu gosto de acreditar que exista um algo mais no fim da vida. Acho ruim pensar que morreu, pronto, acabou. Desligou o interruptor, ficou tudo escuro. Fim. Parece que a vida perde metade do significado. É como assistir um filme bom com o fim ruim. Perde toda a graça.

nervocalm disse...

Carrie, dizer que ateísmo é uma religião é fumaça. Pra essa frase de efeito, há várias outras frases de efeito que o povo gosta de repetir em resposta: ateísmo é uma religião tal como careca é uma cor de cabelo, ateísmo é uma religião tal como não colecionar selos é um hobby, etc. Eu não gosto de usar sacadas alheias, mas essas já dizem bastante. Ateísmo é uma coisa só: não acreditar que existam deuses. Não há instituição, doutrinas, rituais, nem mesmo filosofias em comum que unam pessoas atéias, e simplesmente não há o que cultuar. A não ser que você queira chamar qualquer linha de pensamento de religião, a coisa não se sustenta.

O Dawkins não é mesmo bom falando de religião, mas esses livros que estão surgindo aí são só reação ao mesmo cansaço de que falei no meu blog, o cansaço de ter religião martelada na sua cabeça sem poder retrucar. Porque uma pessoa pode empurrar (mesmo que com a melhor das intenções) a religião dela pra cima dos outros o quanto quiser, mas é só alguém retrucar (mesmo que com a maior das educações), que é tachado de grosseiro, intolerante, raivoso e tal. Dois pesos e duas medidas. Eu nunca abordei absolutamente ninguém pra falar desse assunto, mas já fui abordada montalhões de vezes por devotos de montes de religiões diferentes. Percebe?

Eu também adoro o tema, como você vê.

Carrie, a Estranha disse...

Ila,

Aí é q está, eu acho q a graça da vida deve ser independente de se ter ou não algo depois. Acho q as pessoas não devem fazer as coisas pensando em uma vida pós morte, e o fato de não ter nada não deva mudar a forma como agimos.

Bel,

Ao dizer "o ateísmo é uma religião" eu utilizei uma metáfora. Religião são crenças baseadas em dogmas e, pra mim, dizer q D(d)eus não existe é um dogma tão grande qto dizer q E(e)le não existe. As pessoas q não acreditam em Deus têm tanta certeza da não existência (D)ele qto às que acreditam. E, sinceramente, se ninguém tem provas da existência D(d)ele, ninguém tb tem provas da NÃO existência. Logo se reunir ao redor de um título (os ateus, aqueles q não acreditam em deus) me soa tão sem sentido qto aqueles que creem. Ambos são munidos de certezas, daí a metáfora utilizada da religião.

Concordo com a segunda parte do seu comentário. E vou além: as pessoas acham q ter religião é sinônimo de moral. O q não tem nada a ver uma coisa com a outra.

nervocalm disse...

O problema é que ateísmo não é uma crença em xis, é a ausência dela. É uma resposta a uma proposição. Se não houvesse a idéia de deuses, não haveria ateísmo. O ateísmo em si não propõe nada.

Note que a-teu é uma palavra de negação. Dada a proposição "tal divindidade com tais características existe", algumas pessoas, por caminhos diferentes, às vezes chegam à conclusão que essa existência é tão improvável que não merece nem ser levada em conta, que dirá ditar qualquer coisa em suas vidas. É o meu caso.

Acho que uma minoria de ateus tem como fato que deus nenhum existe ou existiu. Ninguém sabe disso. Mas possibilidade de existência é uma coisa, e probabilidade é outra diferente, e eu não acho que essa probabilidade seja de 50%, pelo menos não pro deus cristão. Já um deus deísta, ou um deus mais esotérico da linha energia e amor, realmente fica difícil discutir, de tão vago.

Eu também acho meio bobo se definir pelo que você não é. É só que quando o assunto é religião e espiritualidade, fica simplesmente mais fácil dizer "sou atéia" que dizer "sou naturalista, materialista, humanista...".

Estou gostando de ler o que você pensa sobre essas coisas. Obrigada.

nervocalm disse...

Ah, lembrei doutra coisa. A palavra dogma também não cabe pros ateus. É ateu quem não vê motivos pra acreditar que um deus exista; se bons motivos surgirem, a coisa muda de figura. Não estamos atados a nada que nos impeça ou constranja a mudar de opinião.

nervocalm disse...

(Problemas preposicionais ali no fim. Vamos trocar pra 'constranja ou impeça de mudar de opinião'. Nhé.)

trinity disse...

Eu sou fascinada por este tema.

Realmente algumas religiões são mais complexas de se lidar, TJ eu tenho até na família, mas não tenho mto contato.
Porém minha manicure é TJ e as moças da casa de depilação são Batista.

Carrie, a Estranha disse...

Trinity,

Manicure Testemunha de Jeová! E o q ela faz qdo tira bife? Não é testemunha q tem paranóia com negócio de sangue?

Bel,

Hahahahaha...tô gostando de ver a empolgação. Depois vc ainda diz q não é uma pessoa efusiva.

Bom, para q fique clara a minha posição (até onde ela consegue ser clara para mim mesma) eu não me considero atéia nem muito menos crente convicta. Digamos q eu já acreditei muito, já desacreditei muito e hoje em dia acho q exista algo - ou talvez prefira acreditar q exista, já q o fato de existir ou não não muda em nada o modo como eu ajo, fazer ou não fazer coisas, simplesmente me dá um confortozinho a mais, então talvez minha posição seja meio covarde, do tipo "vou acreditar porque vai q depois tem alguma coisa". Ah, eu tb rezo. Não sempre, mas de vez em qdo. Faço até novenas.

Eu fui criada no catolicismo. Meu pai (vc já deve ter visto algumas vezes em q eu falei disso aqui) era um católico mega praticante, de trabalhar junto às comunidades eclesiais de base, em pastorais, de dar cursos de noivos, etc, e ele sempre me passou uma visão muito positiva de Deus. Ele era um adepto da Teologia da Libertação, do Leonardo Boff (q, depois de dizer que "preferia caminhar lentamente com a Igreja do q ir na frente sem ela" resolveu ir na frente), e sempre pregou um tipo de religião mais calcado em amor e compaixão muito mais do q em coisas q se pode ou não pode fazer ou em pecado. E sempre me disse q as leis da Igreja (Católica, no caso)são fundadas por homens, e portanto falhos, e por isso devem ser adaptadas a cada um. Meu pai tinha inúmeras críticas à Igreja. Ok, qual o sentido em ter uma religião em q vc adapta os princípios qdo lhe convém? - foi o q comecei a me questionar logo após a minha primeira comunhão. Então lá pelo meus 11 ou 12 anos eu parei de ir a missa. Mas continuo adorando igrejas. Vazias, principalmente.

Enfim, talvez eu seja esse tipo de gente q acredita em uma força, energia, mas concordo com vc q aí fica tudo muito vago pra discutir. Eu acho q eu estou passando por um momento de transformação, aliás, mas ainda não sei muito bem em direção a que.

Mas voltando ao assunto principal: eu usei "dogma" num sentido laico. E aí vc vai me dizer q não existe sentido laico pra dogma, mas segundo o Aurélio, dogma é "ponto fundamental e indiscutível duma doutrina religiosa, e, p. ext., de qualquer doutrina ou sistema".

(Aliás, fazendo uma correção, qdo disse: "pra mim, dizer q D(d)eus não existe é um dogma tão grande qto dizer q E(e)le não existe" eu queria dizer: "pra mim, dizer q D(d)eus não existe é um dogma tão grande qto dizer q E(e)le existe".)

Então eu acho - influenciada por alguns ateus q eu tenho ao meu redor e q falam de religião mais do q a minha tia Deda - q alguns ateus (pode não ser o seu caso) acham q detém a verdade e não vem q podem estar tão errados qto os crentes. Eu não sei se ateus não estão atados a não-crença - e duas negativas, em inglês dá uma positiva. Eu acho q estão, sim. Os q eu conheço, pelo menos.

Não entendi a parte em q vc fala: "possibilidade de existência é uma coisa, e probabilidade é outra diferente". Pra mim, neste contexto em q estamos dicutindo, se equivalem. E o fato de vc achar q esta probabilidade não chega nem a 50% se baseia apenas na sua crença. A não ser q vc queira utilizar critérios científicos. E isso eu não acho q seja uma boa ideia provar a existência ou não de Deus - e eu nem sou uma racionalista, devo dizer.

Vou almoçar.

Lua disse...

Kübler-Ross...já ouvi falar muito este nome no meu curso...rsrsrsr
acho que o mais interessante na sua teoria é colocar como luto qualquer perda que tenhamos na vida, pois se passamos a observar como encaramos as pequenas perdas do nosso cotidiano vemos que, de certa forma, passamos pelas 5 fases que ela fala, de forma diferente em cada situação(é claro). acredito que lidar com perdas seja a coisa mais dificil para nós e, entrando um pouco no assunto medicina, acredito tbm que essa falta de tato em lidar com a morte é que faz com que muitos médicos se esquivem cada vez mais do contato humano com seus pacientes...Olha aí a negação deles!rsrsrsr
Bjos!!

nervocalm disse...

Eu não disse que não existe sentido laico pra dogma, ou que dogma é uma palavra que só se aplica a religião. O que eu disse é que, dentro dessa própria definição do Aurélio, ela não se aplica aos ateus porque nada é indiscutível pra eles. Pelo contrário, é exatamente por se permitirem discutir o assunto que eles chegaram à conclusão que têm. E a conclusão não é imutável. Se um dia surgirem provas concretas e devidamente confirmadas de um deus do tipo xis existir, que motivo terá um ateu pra negar isso? Nenhum.

O negócio de possibilidade e probabilidade é o seguinte. Imagine o Pégaso. Há relatos sobre o Pégaso, imagens do Pégaso, todo mundo já ouviu falar em cavalo alado, mas ninguém nunca viu um. É possível que ele exista ou já tenha existido? Sim. É provável? Eu diria que não, porque, afinal de contas, ninguém nunca viu um, e cavalos alados vão contra tudo que nós sabemos sobre biologia. É até possível que ele já tenha existido, mas não este universo.

No caso do deus cristão, a probabilidade dele existir tal como é descrito é ínfima. Pra começar, ele é um deus interventor, mas suas intervenções nunca podem ser medidas - como ele pode interferir no mundo material sem deixar vestígios nesse mundo material? Ele só faz milagres que têm outras explicações possíveis - "cura" doenças mil, que podem ter sido curadas naturalmente, mas não faz membro amputado crescer de volta, por exemplo (exemplo que não é original meu). A própria idéia de milagre é incompatível com a regularidade que nós observamos no mundo - se houvesse um deus fazendo o que bem quisesse quando bem quisesse, tudo seria imprevisível. Matemática, física, ciências em geral nem poderiam existir. Onisciência e livre-arbítrio também entram em choque. Há muitos e muitos motivos, mas eu diria que basta observar o mundo a seu redor pra ver que um deus interventor é improbabilíssimo.

Por isso os ateus te parecem donos da razão, talvez. Porque, pelo menos pra esse Deus com maiúscula, as evidências concretas estão do lado deles.

Vamos fazer um experimento, se você tiver saco de continuar? Quero que você me responda uma pergunta. Eu nunca tive experiências religiosas pessoais. Nunca vi nada, nunca senti nada, zero. Pensando nisso, que razões você veria pra eu acreditar nesse Deus?

Lilith disse...

Muito interessante a 'discussão' de vocês...este tema também me deixa fascinada.
Eu sou como a Carrie, fui criada na religião católica mas depois da minha primeira comunhão não fui mais à missa, na verdade também gosto de ir à igreja quando está vazia, para rezar. Eu acredito que exista um Deus, uma força maior...mas minha crença termina por aí e sinto como uma experiência individual, minha. Acho complicado também quando as pessoas tentam nos convencer que a sua concepção de religião é que é a correta. Sim, religião hoje muitas vezes é vista como sinônimo de moral e a gente ouve e vê as maiores barbaridades sendo cometidas em nome de um Deus.

Carrie, a Estranha disse...

Lua,

Vc faz o q, Medicina ou Psicologia? Por que o "rsrsr" depois do nome dela? Há muito descrédito?

Bel,

Eu não disse q vc disse q não existe um sentido laico pra dogma. Falei isso por causa de qdo eu disse q existe um sentido laico para fé. E eu continuo achando q se aplica, sim, aos ateus porque, sim, pra eles o fato de Deus não existir é uma certeza. Como eu disse, afirmo isso com base nos ateus q eu conheço. E provas concretas muito dificilmente irão existir. No máximo é q nem a história do átomo. Ninguém vê, mas tiveram provas de q ele está ali.

A-há! Então vc acredita na existência de outros universos? Mas ninguém nunca teve provas da existência deles - o q vai contra a sua ideia.

Eu acho q o problema é q se tenta argumentar com Deus a partir de premissas humanas. Nesse ponto meus argumentos vão até um ponto muito raso, pq não tenho conhecimentos teológicos para tanto e algumas das dúvidas q vc expressou são tb as minhas. Mas partindo do pressuposto de q eu estou defendendo aqui a posição dos q creem (ainda q, como disse, eu mesma não tenha certeza sobre isso), vamos lá. Vc já leu relatos dos ditos "milagres"? Já q vc gosta tanto de argumentos científicos, vc já viu os milagres q são realmente atestados pelo Vaticano como tal? Já viu os estudos científicos q existem sobre o assunto? Os cientistas não afirmam q são milagres, mas mediante determinadas evidências eles não conseguem explicação lógica e racional. Pode-se tratar de um poder da mente, de algo humano agindo? Pode ser. Mas até hoje não se explica como isso age. Vc já deve ter visto tb pesquisas q mostram a pessoas q tem fé religiosa reagem melhor diante das doenças do q as q não tem nenhuma fé. E os monges budistas q passam meses meditando, sem comer nada? Como explicar tudo isso?

Agora, por que isso acontece com algumas pessoas e não com outras, por que os milagres se dão com determinadas pessoas...aí eu não sei. Ou, como diz a liturgia qdo não consegue explicar nada: "tudo isso é mistério da fé".

Sobre onisciência e livre-arbítrio, eu não vejo estes termos como excludentes. Ao contrário, eles se complementam. Deus tudo vê, e por isso mesmo vc deve fazer suas escolhas. Ele não intervém nas escolhas de cada um.

O problema é q não é possível discutir em termos racionais sobre a exsitência de Deus. Ok, é o q temos para discutir, vc dirá, mas se de fato Ele existe, estamos falando de uma mente infinitamente superior à nossa, q sempre existiu e sempre existirá! Como entendê-Lo à luz de tais argumentos? Por isso é q eu digo: é uma experiência extremamente pessoal. O q nos leva ao último ponto do seu comentário, sobre como vc acreditaria em Deus sem nunca ter tido nem um sinal.

Toda religião pressupõe uma prática diária. Tudo bem q existem relatos de pessoas completamente ateias q, diante de certas manifestações se converteram, mas partindo do pressuposto q isso é pouco provável, ou destinado a poucos, eu acredito q a manifestação do Divino se dá qdo vc se abre a Ele, mediante a prática. Algumas vezes de forma sutil - o q pode ser interpretado como outra coisa. Vc não espera q, apenas para congregar mais fiéis, Deus vá sair fazendo milagres por aí, numa de public relations, né?

Lilith,

É, acho q toda vez q vc tenta impor seu modo de vida ao outro, existe alguma coisa errada.

nervocalm disse...

Milagres atestados pelo Vaticano? Ô, fonte isenta, hein? :)

Brincadeiras à parte, relatos de milagres realmente não me convencem. Relatos sobrenaturais em geral não me convencem, sou 100% naturalista. Posso estar redondamente enganada? Claro. Mas por enquanto, as evidências concretas também estão do meu lado. Nunca se conseguiu provar um fenômeno sobrenatural. Algo que existe de fato não deveria ser assim tão evasivo. Você pode argumentar que o sobrenatural ou Deus ou sei lá não podem ser medidos, que operam em outro plano, que não podem ser compreendidos pela razão humana. Tudo bem. Mas, nesse caso, pra que me importar com eles? A razão humana é tudo que eu tenho.

Se um fenômeno não tem explicação, ele não tem explicação (ainda, talvez). Não entendo essa necessidade de preencher a lacuna com "é sobrenatural!". Não ter uma resposta não nos dá carta branca pra inventar qualquer uma. Quando me perguntam uma coisa que eu não sei, respondo "não sei", não respondo "sbrunf". Deus é um sbrunf muito frágil que as pessoas colocam no lugar de vários e honestos "não sei".

Você reparou que estou escrevendo deuses, um deus xis, o deus cristão, um deus interventor, assim tudo especificadinho, e você quase sempre está escrevendo Deus? Esse, pra mim, é um problema grande nesse tipo de discussão. Porque por Deus, dito assim, eu geralmente entendo o deus cristão, que é um deus interventor, que enviou o filho, que também é ele mesmo, pra Terra pra nos salvar do julgamento do pai, ou seja, de si próprio, e que tem um plano traçado pra nós, mas ao mesmo tempo nos dá livre-arbítrio, e se exercitarmos esse livre-arbítrio pra fazer o que ele não aprova, ele nos joga no inferno por toda a eternidade, onde o fogo arde sem parar, mas é escuro, e sentimos dores lancinantes apesar não termos mais corpo, só alma. Não é mais ou menos isso que se prega nas igrejas cristãs? Mas aí você vem e fala de um deus muito mais etéreo, "extremamente pessoal", "uma mente infinitamente superior à nossa, q sempre existiu e sempre existirá!". É uma concepção particular sua, e nem todo mundo que usa Deus com maiúscula está pensando nela.

No fundo, eu desconfio que cada crente tenha uma concepção muito pessoal do deus em que acredita. Por isso é que não entendo por que eles precisam se filiar a igrejas, seguir a Bíblia, dar trela pra padre e dinheiro pra pastor, se meter nas escolhas alheias em nome de um ente que ninguém sabe o que é, guerrear pelo que ele supostamente quer que a gente faça, etc. Não vejo problema em cada um ter sua espiritualidade, mas religião organizada só serve pra atravancar a vida.

nervocalm disse...

Você não me deu uma razão pra acreditar no Deus com maiúscula, só disse que eu preciso me abrir pra acreditar, querer acreditar, esperar que aconteça alguma coisa, e, quando acontecer, me dispor a ignorar outras explicações. Além de achar bem triste, isso quase me faz pensar que, racionalmente, você também não acredita, Carrie.

Quanto a esperar que ele saia por aí fazendo milagres, bem... No caso de um deus que decide meu destino, ainda mais se esse destino depender de eu acreditar na existência dele, acho que seria importante ele dar mais o ar da graça, não? A não ser que seja um sádico. O deus do antigo testamento era, e aparecia toda hora, falava com várias pessoas e fazias altos milagres. No novo testamento, ele mandou o filho-elemesmo, que também fazia milagres. Hoje em dia, povo tem que confiar na palavra dos mediadores - padre, pastor, guru - péssimos RPs, na minha opinião.

Carrie, a Estranha disse...

É q o Vaticano contrata cientistas, pra tipo, ter uma comissãozinha. Não sei se vc sabe, mas o Vaticano não gosta muito de atestar novos milagres. Vai q vem um novo Messias por aí -e, caso ele venha, e não tenha aparecido em primeiro lugar para Vossa Santidade, pega meio mal.

Eu realmente não vejo problema entre Deus ou deuses. Todos podem estar certos. São todas formas de..."energia" (tá bom, vou parar antes q vc me mande pra Maromba).

Não se prega Fogo Eterno mais em missas católicas. Acho q o Fogo Eterno foi abolido junto com o latim (gde perda, aliás. Do latim, não do Fogo Eterno). Outras religiôes eu não sei.

Não te dei razões pra acreditar em Deus, nem vou te dar, e desconfie de quem te der, pois estará tentando doutriná-la. Como eu disse, a fé não passa pela razão. Mas é um exercício. Tem uma frase q católicos sempre repetem: "a fé é um pulo no escuro".

A única coisa q concordamos integralmente nestes dois últimos comentários é que religião organizada só serve para atravancar a vida.

Achei um negócio legal, talvez vc goste. Uma série de conferências da BBC intitulada Do miracles happens? Achei neste site: Portal Ateu (hahahaha...nêgo se dar ao trabalho de fazer um site sobre as suas não crenças e ainda me dizer q não acredita em nada? realmente é hilário): http://www.portalateu.com/2010/01/03/os-milagres-acontecem/

nervocalm disse...

Gostei da dica, vou ver. Obrigada. :)

Mas, ó, sites ateus existem por causa da influência política das religiões. Se as religiões não gostassem tanto de se meter em política querendo controlar a vida dos outros, você poderia passar sua vida inteira sem saber que existem ateus, aposto.

Quero esclarecer uma coisa. Eu não pedi pra você me dar uma razão pra acreditar. Eu propus que você se pusesse no meu lugar, o lugar de uma pessoa que aprendeu sobre Deus (o cristão, especificamente), mas nunca teve experiências divino-religiosas e nunca viu se repetirem no mundo real as coisas que Deus faz no livro sagrado e que a religião prega serem verdade. Que razão teria uma pessoa assim para acreditar? Tem alguma coisa que não estou enxergando aí? Se alguém mais quiser responder...

Lua disse...

Eu faço psicologia...o "rsrs" é pq vimos muito mesmo sobre o luto esse semestre, tanto que virou meio que moda falar sobre os 5 estagios!
Mas descredito não há nenhum sobre a teoria!

Carrie, a Estranha disse...

Oi Lua,

É, eu imaginei q fosse psicologia. Ia ser muito evoluído pro povo da medicina! Rsrs...

Bel,

Eu entendi. E concordo com vc. Não existe razão nenhuma pra vc acreditar.

nervocalm disse...

Obrigada, Carrie. Era só isso que eu queria comunicar: ateus são ateus simplesmente porque não têm razão pra acreditar. Os que reclamam de religião reclamam porque ela é intrusiva demais; os que falam muito de religião falam porque gostam do assunto, assim como você. Portanto, não pense tão mal de nós. :)