segunda-feira, setembro 14, 2009

O óbvio ululante.

Era só uma questão de tempo para que viesse à tona. Sobre aquela história que eu contei aqui outro dia? Pois é. Descobriu-se que o cara era inocente. O que não vem absolutamente ao caso. Se fosse culpado teria se justificado a barbárie cometida? Nunca. Jamais. Mas eu já esperava por isso. Aliás, eu tinha quase certeza. Afinal, julgamentos precipitados e acusações de uma mãe que, na idade de 18 anos já se encontra grávida, pela segunda vez, de outro marido, não podem ser tomados com precisão por ninguém. Indícios apontam que a própria mãe teria matado a criança.

E como o grotesco não dá tréguas, agora vem à tona que o episódio do linchamento foi gravado – mais uma amostra de que o futuro, no sentido tecnológico, não está mal distribuído – por câmeras de celulares da própria população que o linchava. E, rapidamente, jogado no youtube e transformado em DVDs de 5 reais, vendidos no camelódromo da cidade com direito a fila de espera, como me conta o meu amigo Alexandre. Esses dias Formiga Irmã entrou em sala e os crânios dos alunos estavam vendo animadamente em frente a um laptop.

Mamãe me conta que o nosso “bispo comunista” (só para continuar lembrando de Nelson), o nobre e honrado (isso não foi uma ironia, ele realmente é nobre e honrado, ainda que bispo) Dom Waldyr, anuncia na missa de sábado: pelo nosso irmão massacrado injustamente, rezemos ao Senhor.

Rezemos ao Senhor, mesmo. Por nós mesmos e pelo que nos transformamos. Pela nossa estupidez que me faz ter vergonha não de pertencer a Volta Redonda, mas a esse país - diria à raça humana, mas seria injusto. Me envergonha perceber que o choque das pessoas é maior ao constatar que o cara era inocente – como se o fato dele ser culpado justificasse o massacre.

Gostei de ler uma entrevista da Glória Perez dizendo que quando sua filha, Daniela, morreu assassinada ela teve dezenas de propostas de facções criminosas do Rio para apagar o Guilherme de Pádua e a Paula Thomaz dentro da prisão. Bastaria que ela dissesse uma única palavra em uma das entrevistas (correção: uma espécie de senha) e em dez minutos eles morreriam. Ela sequer sujaria as mãos e ninguém nunca saberia. Mas ela nunca disse. Ela se policiava para nunca dizer a palavra. E conseguiu, através da sua luta pessoal, mudar a legislação de um país (aquela que dizia que réu primário, mesmo em crimes hediondos, contava com atenuantes). Ainda que não tenha conseguido mudar a lei que os soltasse alguns anos mais tarde.

As pessoas gostam sempre de dizer: “e se fosse sua mãe, sua irmã, sua filha que tivesse sido estuprada, esfaqueada, morta, esquartejada, o que você faria?”. Glória Perez é o melhor exemplo. Teve a filha morta a tesouradas por um colega de elenco de uma novela escrita por ela mesma (penso em como ela deve ter lamentado ter dado este papel a ele), numa mórbida história onde a vida imitou a arte de forma macabra. E ela não cedeu. Ela preferiu se manter na justiça e no caminho do Bem – sem medo de parecer piegas com esta frase, mas há que se precisar o caminho do Bem, seja qual for sua crença, laica ou não; o caminho do Bem existe e, como disse o Lima Duarte no último capítulo da novela, já que estamos falando de Glória Perez, ele tem que existir ao lado do Mal, dentro da cabeça do homem para que, enfim, ele possa escolher (afinal se só existisse o Bem, qual a vantagem em escolhê-lo?). Ela preferiu acreditar que fazemos parte de uma coisa chamada Estado de Direito, por pior que ele seja. E todos devem ser julgados perante à Lei.

Rezemos para que as Luzes não sejam sobrepujadas pelas Trevas do obscurantismo. De nenhuma forma.

6 comentários:

luf06 disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
luf06 disse...

ótimo texto. concordodo com você. meu pai morreu assassinado por um menino de 19 anos que queria roubar o celular. quando ele foi preso, recebi inúmeras prpostas: de bater, matar, essas coisas. nunca quis nada disso. ele não tem culpa. o buraco é muito mais embaixo. claro que ele acabou com uma parte da minha vida; claro que essa dor vai me acompanhar pra sempre mas fazer isso com o menino não vai trazer meu pai de volta. só vai trazer mais dor pra uma mãe, um pai, um irmão (afinal, ele supostamente tem família, né?). eu só queria que as coisas não fossem assim. que ele ficasse na cadeia e que a cadeia cumprisse seu papel: reeducar. enfim.
nunca te escrevi mas te admiro muito.
Lu

Carrie, a Estranha disse...

Oi Lu!

Muito obrigada pelo seu comentário. São de relatos assim q a gente precisa. Falou tudo. Eu tb te admiro muito. Um beijo grande e espero q algum dia a dor seja sua amiga - porque passar ela nunca via.

nervocalm disse...

PQP. Quando eu achava que essa história não poderia ficar pior, ficou.

Juliana disse...

Concordo plenamente....Excelente texto...
Bjo

Docinho de abacaxi disse...

http://oglobo.globo.com/rio/mat/2009/09/14/bandido-joga-pedra-de-10kg-no-carro-de-vitima-em-tentativa-de-assalto-na-linha-amarela-767614126.asp

Cilea é minha amiga. A gente sabe que essas coisas acontecem todo dia. Todo dia mesmo! Mas ainda assim não perdi minha capacidade de ficar indiferente com uma monstruosidade dessas. Principalmente qdo acontece com alguém próximo.
A gente tem que continuar ficando chocado, ficando indignado. Não pdemos achar que isso "é normal" e nos acostumar. Ainda que isso aconteça todos so dias.
Mais que isso: seria bom que conseguíssemos fazer algo de concreto pra que esse tipo de coisa não volte a acontecer.
Mas o mais absurdo da história toda está nos comentários (como dizer?) hilários dos leitores desse jornaleco (nem temos muitas opções). Coisas como bombardear favelas, uma bomba atômica no Nordeste (os nordestinos são culpados), murar tudo e impedir que as pessoas saiam das favelas (afinal, todo mundo ali se não é bandido é conivente).
que sensação horrível de impotência. Pq nada disso será resolvido: nem a violência nem a boçalidade das pessoas.
Quando a nave mãe chegar, passa aqui pra me dar uma carona!
Bjs!