quarta-feira, setembro 16, 2009

O deserto de cada um


José Castello, crítico literário do Globo (contribui especificamente para o Prosa & Verso), no P & V de sábado retrasado, de 05/09, fez uma crítica sobre o livro “No teu deserto”, de Miguel de Souza Tavares, que estará domingo que vem na Bienal, no Café Literário. Neste artigo ele aproveita a metáfora do deserto – que é tema do livro de Miguel de Souza Tavares, tanto literal como metaforicamente - para falar sobre os desertos que cada escritor atravessa para escrever.

José Castello diz que todo escritor atravessa um deserto, que, evidentemente, é único para cada escritor. Para Fernando Pessoa eram as ladeiras de Lisboa; para Machado, as ruas do Rio; para Graciliano, estava na própria palavra. “Virgínia Woolf trazia o deserto dentro do peito [...] vivia atordoada por sombras (miragens) e acreditava possuir sentimentos que não podia nomear (sentia-se seca). Trazia o espírito sacudido por uma ventania de vozes, que lhe doíam tanto que achou melhor afogar-se – nas águas de um rio – do que sufocar no pó”, diz Castello. E “para Clarice, estava além das palavras, era uma reserva arcaica de mudez e de silêncio que nossa vaidade nos impede de acessar”.

Penso que todos nós, escritores ou não, temos nossos desertos. E a forma como conduzimos nossas vidas é a forma de lidarmos com esses desertos (nem sempre lidar significa atravessá-lo, às vezes lidar vem da constatação que nunca seremos capazes de percorrê-lo, mas é preciso encarar o deserto de frente).

Eu escrevo porque eu também tenho um deserto. Sim, eu escrevo. Ao contrário da Fernanda Torres que escreveu uma peça e disse que tem vergonha de dizer que escreve, pois quem escreve é Shakespeare ou Tchecov, eu escrevo. Eu não sou nem Shakespeare, nem Tchecov, nem sequer a Fernanda Torres, mas eu escrevo. Ainda que meus leitores sejam os 200 acessos diários – uns mais, outros menos. Eu escrevo. Eu escrevo porque se você não acha que o que você escreve é digno de dizer “eu escrevo”, então não escreva.

Meu deserto é o espaço entre mim e os outros. Entre mim e o mundo. Que às vezes diminui, em outras aumenta. Desde criança eu sou atormentada pelo fato de que se o que eu vejo e como vejo, é igual ao que os outros vêem. Se o que se passa dentro de mim é igual ao que se passa dentro dos outros. Daí meu medo, constante, de ficar maluca. Porque ficar maluca, para mim, é descobrir que o que eu penso não é igual ao que ninguém pensa. E realmente não é, como não é o igual ao que ninguém pensa. Ao mesmo tempo em que é – os textos que eu mais recebo comentários de identificação são aqueles mais íntimos e, teoricamente, mais “únicos”.

Mas o meu deserto é esse. Um imenso e inenarrável gap entre mim e o mundo que me cerca. Seja em atos, palavras ou pensamentos. Planos de vida. Sonhos. Durante muito tempo eu tentei ignorar esse gap. Eu tentei achar o meu lugar no mundo, achando que o que faltava era apenas encontrá-lo, até descobrir que ele não existe. Pra muita gente ele não existe, eu sei. E eu teria que cavá-lo com as minhas próprias mãos, pois descobri que não existe nem a ferramenta pra cavar o meu lugar. Além disso, o meu lugar é feito de areia da praia fininha em dia de muito vento – ou talvez melhor dizendo: areia do deserto. Quando eu acho que eu o cavei, ele muda em cinco minutos. Moldá-lo merece uma precisão de um artesão, além de uma observação atenta dos ventos. Olho pra trás e minhas pegadas não estão mais lá. Tudo se dissolve aos meus olhos. E eu penso: cadê? Sequer consigo saber se caminhei ou se continuo parada no mesmo lugar, pois a paisagem parece ser a mesma. Aliás, essa é a pior parte dos desertos. Você não tem um ponto de referência e parece que está rondando no mesmo lugar.

Eu estou a tempo demais envolvida com os preparativos para cruzar o meu deserto. Mais do que eu sou capaz de suportar. Em um desses lugares que eu cavei com minha própria mão na areia fina eu descobri que a única forma de lidar com o meu deserto é criando. Mas eu olho pra trás e o vento levou meu lugar. E eu duvido que ele tenha existido algum dia. Penso que o deserto, o excesso de sol e a ausência de imagens outras produz miragens que nos confundem.

Eu simplesmente não agüento o que a maioria agüenta. E vice versa. Eu não consigo ficar num emprego mais ou menos. Simplesmente não consigo. E outras tantas coisas na minha vida.

Nunca vou me esquecer de uma tirinha do Calvin - que eu sempre adorei – que a minha amiga Fló me deu lá pela sétima ou oitava série, mais ou menos. A tirinha era o Calvin sentadinho na carteira, assistindo aula, aparentemente calmo. Daí em um momento seguinte ele simplesmente saiu correndo da sala, com todo mundo olhando espantado, pois ele simplesmente não agüenta mais ficar ali. No momento seguinte ele é capturado e volta pra sala. Fló me deu e disse: “isso é a sua cara”. Deve estar colado em alguma agenda. Mas o pior é constatar que continua sendo a minha cara. Eu continuo tendo um impulso irrefreável de sair correndo dos lugares. Mesmo – e principalmente – quando eu estou aparentemente calma.

10 comentários:

ila fox disse...

Sei bem como é esta sensação de deslocamento. O que é bem estranho, já que aparentemente eu "combino" em qualquer lugar. Sou bem flexível de opiniões e gostos. Mas é inevitável o tal desconforto e vontade de ir embora as vezes.

Ainda me lembro da primeira vez que senti isso. Foi na pré-escola. Quando minha mãe precisou me botar em algum lugar enquanto trabalhava. Era meio do ano, todo mundo já estava enturmado, de material bonitinho, lápis de cor nos estojos... e eu lá, me sentindo muuuuito deslocada no alto dos meus 5 anos. Não via a hora de voltar pra casa.

Também me lembro de me sentir muito deslocada e ter aquela vontade de sair correndo dali nas aulas de catequese. Meu deus, como eu não gostava daquilo!

Depois vieram as baladinhas.
Me lembro do primeiro baile que fui. Fiz minhas unhas da primeira vez, comprei um vestido da moda e fui com as minhas amigas. Naquela expectativa adolescente do paquerinha estar lá e tal. Chegando lá minha vontade era só de ir embora logo. Não sei o que me deu. Vontade de sair correndo mesmo.

Estas sensações se estenderam para a faculdade, empregos, namorados... sempre aquela vontade de sei lá, largar tudo, sair correndo, ser abduzida, tchau.

As vezes tenho certeza que não sou deste planeta. :-/

ila fox disse...

Hmmm acho que esta música é a sua cara então:

"And she pictures all the places,
Where she knows she still belongs,
And she smiles the secret smile,
Because she knows exactly how
To carry on,
So run baby run, baby run, baby run, baby run..."

http://www.youtube.com/watch?v=-JoXkVN6xYs

trinity disse...

Carrie,
Vc faz eu pensar,divagar, mas ainda sim eu não consigo sair do "sistema" antes a minha desculpa seria por motivos financeiros (porém vc já provou em outro antigo post que isso é uma desculpa)então hj eu sou um indíviduo poltão.

Cinthya Rachel disse...

tenho vontade de sair correndo ao menos 3 vezes ao dia... e qdo era criança sempre tinha essa ansia de saber se o modo que enxergo a cor verde é o mesmo verde que o outro enxerga, rs. e não mudei... esse assunto ainda me intriga

mel disse...

Como é por dentro outra pessoa
Quem é que o saberá sonhar?
A alma de outrem é outro universo
Com que não há comunicação possível,
Com que não há verdadeiro entendimento.

Nada sabemos da alma
Senão da nossa;
As dos outros são olhares,
São gestos, são palavras,
Com a suposição de qualquer semelhança
No fundo.

Fernando Pessoa, 1934

Docinho de abacaxi disse...

Ufa!
Que bom saber que não é assim tão pecaminoso não conseguir ficar num lugar de que não se gosta ou simplesmente de que não está afim.

Fui demitida terça-feira.
Não porque meu trabalho fosse ruim, ou porque eu não acrescentasse nos projetos, nem nada.
Mas só porque deu pra perceber que eu não estava nem um pouco afim de estar lá.
Disseram: vc não tá mais nessa. Vc tá em outra. Vai atrás dessa coisa então. Senão vc não vai ser feliz.
Tomara que isto esteja correto.

Eu não sei como algumas pessoas aguentam....

Carrie, a Estranha disse...

Docinho,

Sorte sua. Faculdades não demitem no meio do semestre. E sair no meio é feio demais.

Mel,

Q lindo.

Oi Ila, oi Trinity oi Cynthia!

Bracho disse...

"Meu deserto é o espaço entre mim e os outros. Entre mim e o mundo"...vc achará piegas ou meio doido se eu disser que essa frase tem uam vibe Clarice?...eu adoro dizer que as coisas têm vibe...rs...seu texto me emocionou...muito, exatamente porque fala do meu próprio deserto e da minha própria sensação de deslocamento...sempre constante, sempre latejante...mas que me faz única.

Carrie, a Estranha disse...

Oi Bracho,

Não, não vou achar. É claro q ficarei lisonjeada. Várias pessoas q leem e estudam Clarice já me disseram isso. Eu acho q algumas das minhas vozes parecem com as dela. Mas, claro, isso não quer dizer q eu escreva como ela.

Bj

Lilith disse...

Você sempre consegue colocar em palavras as coisas que também sinto...o(s) deserto(s)...essa sensação de deslocamento...que são como os da ila fox, se estendem por todas as áreas de minha vida.