terça-feira, fevereiro 10, 2009

Da série: nunca te vi, sempre te amei


É nessa horas – e em muuuuitas outras – que vale a pena ter um blog, ainda que o pulso-quase-não-pulse mais por causa da tendinite (foda-se a tendinite! Eu posso escrever de várias maneiras! Se eu não tiver mais pulso, eu encontro uma forma de escrever. Se não der tempo, eu paro de dormir. Agora q o Joel me disse que a IBM tem um programa de reconhecimento de voz, então...), ainda que você pare duas horas da sua tese, ainda que durma menos duas horas. Porque a gente quer ser amado. Porque é bom receber elogios e tapinhas nas costas. Porque a melhor coisa em escrever é descobrir que não estamos sós, embora estejamos irremediavelmente sós. É como se a gente conseguisse arranhar a tampa do caixão. Ninguém garante que isso vai te salvar, mas já é um alívio ter conseguido arranhar a tampa do caixão – mórbido, né? Porque a gente escreve por vaidade – e não, não me venha citar o caso de Fernando Pessoa nem o de Kafka que escreviam e botavam na gaveta (no caso do primeiro) ou mandavam o editor queimar (o segundo); se eles reaaaalmente não quisessem ser publicados eles teriam simplesmente jogado tudo fora muito bem jogado – e os blogs potencializam a vaidade, fazendo com que o retorno seja imediato – bom ou ruim.


Leiam. É longo, como quase tudo que eu escrevo, porque embora escrevendo em internet, em veículo rápido – u-hu! – ágil, moderno, onde todo mundo tem textos curtos e hiperlinkados, eu ainda escrevo mais do que deveria e meio analogicamente. Pra quem é doutorando que nem que nóis. Pra quem tem prazo, pra quem tem pressa, mas não quer perder a calma. Pra quem não sabe se casa ou abre uma coca-cola. Pra quem não sabe se têm filhos ou passa o verão numa praia da Espanha. Pra quem se indaga sobre os rumos da própria vida e das próprias estrias. Pra quem tem dúvidas. Pra quem se acha especial – e todos nós não nos achamos?


Engraçado que a imagem que a gente tem do outro é sempre melhor do que temos de nós mesmos e do que o outro realmente é – mas isso é assunto pra outro post. Quem sabe um post de resposta?


Obrigada, Ana. Pela sinceridade, pelo e-mail e por me deixar dividir isso com tanta gente.


Dearest Carrie miguxa =)


Pronto, vou finalmente começar a te escrever esse email. Procrastinar minha tese é um pecado do tipo auto-boicote que é diariamente foda de tolerar, mas a coisa tem ficado tão cada vez pior que nem email eu escrevo mais. Como se o branco da tese, o medo de escrever a tese (cara, às vezes eu penso no clichê auto-ajuda do tipo "vc tem medo do sucesso?"), como se esse medo tivesse se tornado um pânico de escrever em geral, o que torna o póbrema da pessoa bem mais grave (talvez seja melhor os problemas ficarem mais insuportáveis mesmo, pra ver se a urgência nos leva a resolvê-los...). De uns tempos pra cá eu procrastino até nas minhas antigas formas de procrastinação, se elas envolverem escrever. Eu sempre procrastinei meus trabalhos de escrever escrevendo outras coisas. Daí o blog, as letras de música perdidas, as agendas, os caderninhos de idéias e poemas. Todos parados atualmente. Eu olhando pra eles, tentando achar uma forma de não achar tão séria a situação. Mas tá foda.

Eu leio você sempre. Eu agradeço mentalmente que vc não tenha pânico de escrever, porque assim eu não perco o que vc escreve. Eu que sempre fui de escrever longamente, por ter tanto o que dizer (e pena do ouvido das pessoas, pq eu falo tanto quanto). E vc tem uma forma familiar de pensar. Eu vou seguindo os parágrafos como se eu estivesse morando por um tempo na sua cabeça, e como se lá fosse um lugar familiar demais, como se fosse a sala de estar da minha própria casa, mas bem mais organizada, mais limpinha, com mais livros. Eu leio e instantaneamente tenho matéria-prima pra horas de bate-papo com vc. Porque vc só fala das coisas sobre as quais eu tô pensando. Os livros, escrever a tese, morar fora, morar dentro, morar, ser único, ser igual, ser chófen, ser. E esse email que eu poderia escrever pra vc assim sem ensaio, sem nada, levemente, acaba indo pra mesma gaveta das coisas maravilhosas que eu idealizo fazer mas que ficam muito maravilhosamente perfeitas lá na gaveta imaginária pra eu ter coragem de começar a rascunhar.

Preguiçosa, tô sabendo, mas não falemos alto, que eu morro de vergonha. Auto-boicote é um termo mais muderno que eu elaboro melhor. Covardia também é muito pesado. Muita pressão, medo de errar, blablabla, ai. Mas já que tô aqui fazendo um exercício de executar, porque 2009 vai ser um ano de execuções, e tô aqui na cama, vendo a neve cair lá fora a -5 graus, tomando café, e esse é sempre meu momento mais lúcido do dia, eu fico numa onda super sincera, que eu acho que combina com vc muito, e fiquei com vontade de te dizer porque eu fico te amando em silêncio quando seria tão legal trocar palavrinhas, eu que sempre fui tarada por diálogos epistolares inteligentes. Mas no caso do meu não-escrito pra vc, eu visualizo muitos possíveis porquês me gritando. A gente tem tanto em comum quanto tem diferenças, de uma forma muito familiar e muito chocante. Será? Não, não é isso não. Mas é como se vc fosse uma realidade paralela minha, como se me lembrasse o que eu mais ou menos seria se fosse mais disciplinada, menos preguiçosa e covarde, mais verdadeira comigo, sei lá. Basicamente mais disciplinada e menos preguiçosa. Você vai à biblioteca todos os dias, vc vai à academia, vc segue regimes, vc escreve no blog todos os dias longa e lindamente, vc tem defesa marcada, vc não fuma nem gosta de maconha (ai), vc não acredita em deus, ou em destino. E vc nem se acha verdadeiramente inteligente. Eu - pra não ficar só me pisando, pq se o email seguir assim daqui a pouco eu vou me jogar de cara na neve - tenho muito rigor acadêmico. Acho que é o único rigor q eu tenho. Não que eu não seja uma picareta foda que tem o dom de potencializar o pouco(quíssimo) que leu e ouviu em palestra. É rigor na forma, no argumento. Mesmo quando eu não sei consertar, eu vejo o erro num texto. Foram muitos anos de nerdice e Colégio Militar, muitos anos em que eu tinha espinha demais pra ir pro recreio, então a biblioteca era mais legal. Muitos anos memorizando a gramática do Cegalla pra prova, nerdice que eu acho que eu deixei no Brasil. Tô precisando resgatar. Mas enfim, sou uma chata mesmo, que pra julgar texto teórico não consegue de jeito nenhum largar totalmente uma arrogância de berço (filha de acadêmicos, argh). No mais, não há um vício que eu não pegue, não há uma safadeza que eu não goste, uma sem-vergonhice da boa, um seriado da fox, um baseado no fim do dia com café, porque quem tem esse compromisso com a sobriedade é mesmo gente de muita fé no correto, e minha fé é tanto na possibilidade, que eu não foco, eu não decido (ah, eu já te disse que não decido?), eu não lembro muito bem em nome de quê, e ó meu deus, eu morro de medo. Se eu blogo coisas vagas e esparsas com ares de poesia é porque me falta coragem de colocar a cara a tapa na prosa em primeira pessoa. Escrever que por mais um dia eu desenhei nós feitos de galhos nas margens do caderno da tese (sim, porque andei abolindo escrever na tela pra ver se melhorava), fiz a unha de vermelho, li baudelaire sobre wine and hashish, fiz broa de fubá pro meu namorado e piorei quatro parágrafos.

Bem, eu poderia dizer só as coisas boas. Contar por exemplo que me matriculei numa academia super hiper luxo (mas q tava na promoção, sem taxa disso, blablabla...) em agosto e que desde então eu tenho ido cada vez mais freqüentemente, e tenho me surpreendido em como a gente pode mesmo ser o que quiser desde que não desista nunca (eu tb aprendo com Rocky Balboa), me surpreendo sempre com meus muques nos braços, eu que achava q tinha braços atrofiados, me surpreendo com meu ar normal quando tô lá fazendo abdominais, como se eu fosse mesmo afterall uma pessoa que faz abdominais pela manhã. Me surpreendo de ver que -ai, de novo - eu perco muito na vida por teimosia. Devia acreditar mais nos mais velhos, nos clichês, nas bulas, nos dalai lamas. É por duvidar de todo mundo, é por pura arrogância de não dar credibilidade pra gente igual que eu quebro a cara tão mais freqüentemente. E no fim, pelo menos na minha vida, as respostas são as mais óbvias, Daniel Sam. E lá estou eu indo à academia, não mais pra emagrecer 5 quilos até a viagem pra praia nas férias (não morra de vergonha de mim), mas de verdade, sinceramente, porque concluí que é o melhor custo-benefício. Porque é isso ou remédio pra osteoporose, colesterol, plástica, remédio pra acordar, pra dormir e pra depressão. Malhar resolve melhor.

E no fim isso é que é anti-producente nessa bagunça que sou eu. Precisar entender, concluir, testar, fazer o contrário, o oposto, pra primeiro me achar mais verdadeira, mais perto do é da coisa, e logo depois me fuder, me fuder que-nem-que-nem todo mundo, de uma forma que faz a gente se sentir humilhado por ser humano, por ter tanto livre-arbítro e ser tão determinado por hormônios, graus dos óculos, dias de menstruação, alta do dólar, dor de barriga, coisa e tal. E no fim as grandes verdades da vida, que depois de muita cabeçada a gente aprende (do aaaaalto dos meus 28 anos), são aquelas verdades que a D.Elvira, a lenda que faxinava a casa da minha avó, da minha mãe e depois a minha, sempre dizia. Cura pra depressão é uma troxa de roupa (vide a proposta de Jung que diz que a gente tem que "trabalhar" com a falta, do tipo, levanta e caça serviço). E a gente quer ser muito orginalmente feliz, sem seguir nenhum modelo, sem comprar roupas da moda de nenhum país em que a gente viva, sem pintar o cabelo nem fazer relaxamento, sem fumar maconha pra contestar porque é absurdo, nem deixar de fumar em nome de uma sobriedade alucinante, cara e que dói e... pra quê mesmo que eu esqueci? A gente quer escolher, e não ser escolhido. Porque a gente leu o que Sartre falou da liberdade, e Nietzsche falou do bem e do mal, e Benjamin falou da tv, do cinema e a gente mesmo fala sobre a internet, a gente quer escolher. Porque a gente pensa, isso é inegável, e parece não ser tão comum como poderia ser natural. Então não é? Não, pensar e querer escolher é coisa raríssima, é só reparar. E a gente se sente especial. A gente não é especial, Carrie? Eu ainda acho. Então não dá pra fazer regime como os outros, vestir roupa como os outros, academia como os outros, disney como os outros, casar e ter filhos como os outros, porque os outros se parecem demais entre si quando tomam forma de maioria, e os outros não sou eu, não sou não, deus me livre. Sei... Mas ninguém quer ter colesterol, ou dor no joelho, ou dormir mal e acordar quebrado, ou ter aquela tossezinha que não passa, ou aquele frio na cama vazia de noite, ou aquelas contas que somadas dão bem mais que a grana que entrou. Comida, diversão e arte. Mas sem atalho, que atalho dá prejuízo a longo prazo e - que droga - a gente já descobriu isso, porque a gente pensa. Então não dá mesmo pra usar nenhum atalho pra nada. Nem anfepramona, nem valium, nem fluoxtetina, nem cafeína, nem thc, nem álcool, nem louis vitton, nem channel, nem prada. Vou te falar, é muito mais trampo pra depois de um tempão chegar ao mesmo lugar conclusivo dos velhos clichês. Eu penso isso enquanto bebo meu chá verde (estamos reduzindo a cafeína), enquanto colocamos na mochila o filtro solar e a garrafinha d'água, enquanto tiramos a carne moída do congelador. A obviedade do que nos é humano é muito muito humilhante.

E agora tô pensando que vitimização é uma coisa repulsiva, e eu me autodepreciando devo estar te enchendo o saco. E nem é verdade que eu me acho uma merda, né não. Além disso da academia, eu tenho mil amigos que vivem à minha volta como se eu fosse a vó (nem é mãe mais) da galera. Eu tenho vocação pra ser namorada, sempre tive bons namorados, meu sofrimento nessa área nunca foi de não ser amada mas ser amada sem amar (tb é uma merda), e não tem como eu não ver que eu dou uma sorte do caralho. Achei a tampa do meu balaio, que nem-que nem eu queria. Descobri que quando a gente tá apaixonada a gente faz sim janta pra esperar, a gente ajeita os peitos no sutiã quando entra em casa e, por muito pouco, a gente acha bonito pensar no sobrenome dele no seu nome. Afe. Casamento é um instinto de fêmea. Ish... No mais, o doutorado, além de ter sido a gota d'água pra eu entrar pra academia, fez de mim uma dona-de-casa profissional. Tipo, qualquer tarefa mais executável que reelaborar parágrafos confusos se tornou uma fuga gostosa e sem culpa. E eu relaxei muito inventando métodos novos de faxinar a casa em menos tempo e melhor ao invés de corrigir minha metodologia. Quantas receitas eu aprendi nas minhas tardes de estudo! Eu tb canto bonito, uma coisa que não é mérito nenhum, já que eu nasci cantando, mas que eu sinto que compensa por muitos dos meus póbremas, porque música é uma coisa que embeleza mesmo.

Peraí, porque eu tô te contando que eu canto? Tá parecendo um comercial de amizade. "Quer ser minha amiga? Eu sou uma perdida, maconheira, preguiçosa e chata, mas eu lavo, passo e canto." Eca.

Cara, perdi totalmente o fio da meada. Mas eu vou tentar concluir meu email sem sentido e enviar mesmo assim, mesmo enorme, sem base e confuso. Pelo menos vc vai ver diretinho o quadro, e apesar de enxergar o quanto ele é bagunçado e confuso, vc vai se ver nele, presente nas reflexões, na diferença e na semelhança, nas auto-cobranças e nas análises de filme e do sistema de educação brasileiro (com as quais eu sempre concordo sempre animadíssima pensando: "mas gente, que vontade de conversar com ela!").

Não vou te culpar se vc não tiver chegado até essa linha. Depois desse longo email catchin-up, que provavelmente vc não vai conseguir responder, ou vai, porque vc é uma pessoa que executa (vc é escorpião? hahaha) e vai rapidamente mandar algumas linhas que vão me fazer reforçar a meta de otimizar, ana, otimizar, otimizar. Mas de qq forma, eu vou começar a comentar no seu blog com mais freqüência. Porque se eu já ganho tanto lendo vc, eu penso que ganharia ainda mais trocando pensamento, e de mais a mais, eu quero vc na minha coleção de pessoas preferidas, porque até meus amigos eu quero que não sejam como os amigos dos outros. Quero os meus assim, bem estranhos, miguxa. E, porra, vc me ensina muito. Muito. Eu já saí de casa várias vezes rumo à biblioteca, ao invés de assumir esse jeito de escrever de roupão e caneca, madrugada afora, com cacoete de poeta maldito, por ler vc, e ver que tem como ser intelectual, único, vivo, escolhendo, e ainda assim produzir, não virar alcoólatra, publicar artigos, defender tese e ir à academia.

Eu te acho o máximo, Carrie.

Nú, já são 10.20. Força na peruca que o frio tá de lascar. E eu preciso ir à academia, porque se passam 3 dias, eu me esqueço que é bom. Um mal hábito bem enraizado é sempre um pé no saco, né?

Bjoks, miguxa. Me escreve!

Ana.

6 comentários:

ila fox disse...

Eita! a Ana consegue escrever mais que eu! hoho ;-)

Milema disse...

Oi. Já experimentou colocar gelo nessa sua tendinite?e alongue sempre. Antes, durante e depois de digitar mto. Bjos

Carrie, a Estranha disse...

Não tá doendo...mas tá dando mostras, sabe? E como eu sou apavorada já começo a pensar: atrofiei, morri!

é, eu alongo.

Amana disse...

eita... gostei da ana...

Ana Manga disse...

o mais legal é essa sensação de que finalmente a xuxa sorteou minha cartinha e leu lá na tv, hahaha...

depois me passa os bizú pra baixar coisas de la interné, que tb somos analógicas por acá.

bjuu!

Carrie, a Estranha disse...

HAHAHAHAHAHA...