sábado, junho 21, 2008

Elocubraçoes linguísticas

O problema de se escrever em outra língua é que não basta você saber escrever em outra língua. Você tem que saber para onde está escrevendo. Qual é o seu veículo e qual é o seu leitor. Assim como em português. Há diversas linguagens em uma só linguagem.

Exemplo: quando eu fazia jornalismo meus professores detonavam meus textos. Diziam que eles não tinham imparcialidade nem neutralidade e que eu nunca vingaria em uma redação. Eles tinham razão. Eu só ia bem nas matérias teóricas e em outras como Oficina de Textos, onde o professor pedia pra eu ler meus textos em voz alta. Ou seja: aquelas em que a técnica estava mais próxima de uma subjetividade, que tinha mais a ver comigo.

Quando fui para área acadêmica parecia que eu não era alfabetizada. Como escrever uma monografia, meu Jisus? Tudo que eu escrevia saía muito ruim! Mas aí era diferente. Eu não sabia escrever, mas queria aprender. E eu sabia que eu sabia escrever. Mas não sabia escrever aquele tipo de texto. Que, como qualquer texto, exige técnica. Depois de algum tempo treinando eu consegui escrever “academicamente” (leia-se: ao invés de você dizer que a “Revolução Francesa foi em 1789” você diz que “Pode-se dizer que, em 1789, com a culminância de um longo processo que vinha se desencadeando nos séculos anteriores de profunda cisão entre os três Estados, aliado a uma conjuntura de progressos científicos e tecnológicos e toda a uma cultura humanística que florescia na Europa do século XVIII, sem esquecer, contudo, da Independência dos Estados Unidos em 1777, desenrolou-se um processo que pode ser entendido como Revolução Francesa, que tem seu início em 1789 e se desenrola pelos 10 anos seguintes, adquirindo contornos específicos em cada momento na medida em que diversos grupos – muitas vezes opostos – se alternaram no poder” e por aí vai. Na linguagem acadêmica nada é. Tendo em vista a hierarquia acadêmica – graduando, mestrando, doutorando, pós doutorando... - você menos afirma quanto mais baixo estiver nessa escala. Relativize tudo, não dê certeza de nada, use termos vagos e imprecisos como “tudo leva a crer”, “as evidências indicam” e “pode ser que” ou “podemos falar que”. Na dúvida, taque uma citação de algum autor famoso e diga que não foi você quem disse isso, mas Fulano de Tal, e se Fulano de Tal acha isso, que é você para desmenti-lo, não é verdade?).

Agora imaginem vocês, ter que escrever em outra língua e academicamente falando!! Eu não sei se as palavras têm o mesmo peso que na língua portuguesa. Eu quero escrever “life’s trajectory”, que na minha cabeça não teria problema algum e deveria significar dizer “trajetória de vida” e descubro que “trajectory” só é usado em caso de trajetória de bala, flecha ou algum objeto. Quer dizer...foda, né?

Mas ao mesmo tempo eu fico tranqüila – suuuuper tranqüila! Deus tá vendo minha tranqüilidade – ao pensar que assim como eu aprendi a escrever em português, em academicês, eu também vou aprender a escrever em inglês e em inglês academecês.

Só não vai dar pra ser em 4 meses.

5 comentários:

Ila disse...

Fiquei assustada com seu exemplo da Revolução Francesa. O.O

Sempre gostei de resumir em poucas palavras uma idéia, por que assim me distraio menos pelo caminho e chego ao raciocínio mais rapidamente.

trinity disse...

Parabéns Carrie meu sonho é escrever de modo acadêmico s/ ralar tanto na minha língua portuguesa, já passei por isso em um TGI, agora tenho uma monografia. E vc já está no inglês!

Anônimo disse...

Ah, a primeira vez que tive contato com um texto acadêmico eu logo pensei "ai-meu-deus vai direto ao ponto". Tolinha, mal sabia que a embromação "faz parte"!

fulô disse...

carrie,
em inglês também tem acadêmices, só que não é assim que nem o seu exemplo da revolução francesa (eles nunquinha que escreveriam uma frase tão longa).
é mais ou menos assim - ao invés de explicar assim tão explicadinho que nenhuma língua é neutra, você chama isso de heteroglossia e cita o Bakhtin. o mais importante e o mais difícil (a idéia), você já entendeu.

Carrie, a Estranha disse...

Oi, Fulô! É eu exagerei.