domingo, maio 25, 2008


Dia desses escrevi um post sobre um amigo de infância que fez 36 anos. Nesse feriado um outro amigo de infância não fez 36 anos e nem nunca vai fazer. Porque morreu. Aos 35. De acidente de carro.

Eu já perdi a conta de quantos amigos/primos/conhecido já bateram de carro bêbados. Alguns, como esse, de forma fatal.

Eu sei, eu não dirijo. Eu não devo saber do que eu estou falando. Mas é que realmente não entra na minha cabeça que as pessoas bebam e dirijam. É a mesma coisa que você encher a cara e ir pra uma caçada. Ou uma guerra – ok, você pode até argumentar que no Vietnã muita gente se drogava pra agüentar a guerra, mas lá os caras não tinham escolha, iam sem saber o que os esperava, enquanto dirigir bêbado é escolha. Uma coisa é você ocasionalmente beber além da conta e pegar o carro. Outra é você ter como prática dirigir completamente embriagado, como a maioria dos meus amigos/conhecidos tem. Carro é arma. Mas realmente eu não sei de nada. Não dirijo.

E inventam teorias. De que se você dirige devagar, não tem problema – claro, entre estar bêbado a 120 por hora ou a 40, é bem melhor a última opção, mas não quer dizer que não seja arriscado. Dizem que estão acostumados. Que conhecem o caminho. Há a cultura de dirigir bêbado. Já vi pais dando o carro pra filhos menores de idade e bêbados (dois crimes ao mesmo tempo: álcool e direção a menores), porque eles precisam “aprender a dirigir bêbados”.

Eu sei que morte por acidentes de trânsito envolvendo álcool são comuns em todo o Brasil, das grandes às pequenas cidades. Mas como a maioria dos meus amigos/primos que se acidentou/morreu o fizeram em cidades pequenas ou em avenidas e estradas onde não havia nenhum tipo de perigo, fica a certeza: as pessoas costumam abusar onde acham que não tem perigo. Me lembro de um ditado de que diz que “o mar quer os nadadores. Porque os que não sabem nadar já são dele”. O que isso tem a ver? Quem dirige bem e está em um ambiente supostamente sem perigo costuma abusar da própria habilidade – quem dirige mal sabe que tem que tomar cuidado redobrado. As pessoas acham que porque estão em cidades pequenas podem dirigir bêbadas. Ou porque estão devagar podem dirigir bêbadas. Ou porque só vão à esquina não tem problema. Mas realmente eu não devo entender porque eu não dirijo. Só pode ser. O fato é que, com certas coisas, você tem que ser radical. Sei que cada um tem um limite, mas eu acho que a lei deveria ser mais severa com quem dirige bêbado. E o limite de álcool deveria ser menor. E se as pessoas perdem o limite, então talvez não valha a pena beber nada no dia em que estiver de carro. Mas claro, eu não dirijo. Deve ser por isso que eu penso assim.

As pessoas acham bonito dirigir bêbadas. Principalmente os homens. Acham legal dirigir “muito doidas” e dizem quase com um sorriso no rosto: “nossa, nem sei como eu cheguei em casa!”. Gostam de testar seus próprios limites. É toda uma cultura que associa virilidade a direção e, não raro, ambas a álcool e droga. É culturalmente aceito dirigir bêbado. E mudar a cultura é uma merda. Só com muita educação e punição – duas coisas inexistentes nesse país.

Morrer é triste. Morrer de forma estúpida é duplamente triste. Parece que poderia ter sido evitado.


***


Enterros seriam tão bons se não fossem os mortos, não é? Pois se encontram gente que você não vê há tanto tempo. Daí a gente fica pensando: se fosse pra uma festa as pessoas não conseguiriam estar todas aqui, mas só porque é um enterro todo mundo deu um jeito. Ou talvez isso seja válido apenas para o Planeta Minas. “O mineiro só é solidário no câncer”, frase atribuída por Nelson Rodrigues ao (mineiro) Otto Lara Resende. Vocês já foram em um enterro em uma cidade no interior de Minas? É algo que me faz entender o conceito de culturas híbridas do Canclini. Na América Latina, onde as tradições ainda não se foram por completo e onde a pós-modernidade já chegou em vários aspectos, vivemos culturas híbridas. Enterros no interior de Minas (acredito que nos interiores em geral, mas me detenho no meu universo) são experiências medievais. (Morrer, aliás, é uma experiência medieval. Totalmente anacrônica). Enterros em Minas são mais animados do que muitas festas.

***

Certas relações só se tornam claras após a morte de uma das partes. Além disso, em certas mortes você percebe que faz parte de um círculo muito maior do que você mesmo. Não, não digo a humanidade. Digo, um círculo de pessoas que, ainda que não sejam seus melhores amigos, são parte da sua vida. E não há obviedade mais ululante do que essa – mas por isso mesmo mais necessária: a morte iguala a todos. Ninguém escapa dela. É pó mais democrático dos momentos. Você pode até adia-la com algum dinheiro, mas até hoje ninguém conseguiu escapar.

***

Nada mais a declarar.

9 comentários:

Anônimo disse...

Dor, tristeza e luto!!!
Concordo com vc e eu dirijo!
Algumas vezes bebi e dirigi. No outro dia acordei com medo de mim mesma.
Espero não fazer nunca mais isso.
Beijo,

anna v. disse...

Você tem toda razão. Na verdade somos muito transigentes com isso de beber e dirigir. Não faz nenhum sentido, somos esclarecidos o suficiente para saber, mas mesmo assim insistimos nessa crença juvenil da imortalidade. Mesmo já não sendo mais tão juvenis assim. Talvez seja uma das últimos atos de resistência à vida adulta. Uma porcaria, enfim.

Srta. Rosa disse...

Mmmmfff... não tem muito o que dizer. Mas concordo com você. Eu, quando bebo, não dirijo. Paro no segundo whisky se não tiver pra quem passar o comando. E tomo um café. A vida é uma só, até que se prove o contrário...

Bezzos, querida, boa semana!

ps: quando nossa amiga em tour pela Itália voltar, marcamos um novo café para pôr BOAS fofocas, de preferência, em dia.

nervocalm disse...

Carrie, antes de mais nada, meus pêsames pela perda do seu amigo. Eu sinto muito.

Outro dia, visitando meus pais, fiquei no maior dilema e tenho pensado muito nisso desde então. Meu tio resolveu ir embora depois de beber muito, com uma lata de cerveja ainda na mão, e dizendo "eu dirijo melhor quando estou bêbado". Vê. Eu achei que a gente devia ter impedido, chamado um táxi, sei lá, mas é complicado impedir um homem adulto de fazer o que ele quer. Isso me deu uma idéia. Nessas horas, quando alguém sai dirigindo bêbado de um lugar, alguém que estava junto podia poder ligar pra polícia e avisar "ó, tá saindo um carro tal com a placa tal de tal lugar e o motorista tá bêbado". A polícia interceptaria o carro e tomaria as providências. Mas eu não acho que a polícia de hoje faria isso. O que mais me angustiou nem foi que meu tio podia morrer, mas que ele podia matar.

Carrie, a Estranha disse...

É, pessoas...é isso aí.

Anna V,

Pois é.

Srta Rosa,

Vamos, vamos...

Bel,

Só amarrando dentro de casa uma figura dessas, né?

Bjs

Cris disse...

sinto muito por você, querida, e pela dor da família. a vida é, realmente, muito estúpida. beijos

Jussara disse...

Sinto muito, Carrie.
Eu tenho verdadeiro horror/medo de trânsito: de ser atropelada ou de acidente. Trânsito mata muito no Brasil e geralmente quem mata fica impune(quando não morre junto no acidente). Tb tenho primos que bebem e dirigem e acho um absurdo, e dirigem em alta velocidade e até em rodovias. E o que eu acho pior é a pessoa colocar em risco a vida de um ou muitos inocentes e ficar por isso mesmo,pq a lei não é só frouxa com quem dirige bêbado, mas com quem mata(de carro) tb, independente de estar bêbado ou não.

Anônimo disse...

É amiga, e sabe o que é pior, não vamos aprender...sei disso, não sei pq, mas sei...
DANI

Natucha disse...

Oi, senti vc muito equilibrada, que bom, mas o luto é uma fase necessária, conforme Melanie Klein, espero que vc tenha se permitido chorar.
Obrigada pela atenção em rel aos emaisl, bjos