sábado, dezembro 09, 2006


Tento encontrar o peso certo das coisas. A medida exata. O tempo preciso. O ritmo. Mas a maior parte do tempo só consigo enfiar o pé no acelerador ou frear tão rápido que é impossível não me arrebentar no pára-brisa. Tento achar as palavras exatas – aliás acho que todo mundo que escreve o faz nessa ânsia de tentar dizer o indizível, assim como um escultor tenta dar forma a algo amorfo dentro de si, e, por isso, talvez a sensação de que nunca fica bom é sempre presente, mas ainda assim é muito melhor do que a sensação de não ter tentado; a tentativa vale por si só; quem sabe se expressar e dar nome às coisas vai ser outra coisa na vida. O tom certo. Mas a maior parte do tempo só consigo me achar uma fraude, farsa, piada. Que existem 200.000 pessoas melhores, mais talentosas e capazes do que eu. E que, sim, é preciso se comparar, sim. E que a qualquer momento eu vou ser descoberta. Como um vilão do scooby-doo, minha máscara um dia vai cair e todos vão se surpreender com quem eu realmente sou. Só que aí eu me lembro que não tenho um rosto pra ser descoberto. Não sou tão profunda assim.

E o pior é que algo de mim ri disso o tempo todo. Sabe que não tem o menor cabimento. Não tenho legitimidade nem mesmo perante mim mesma. Nem a minha dor é legítima (e, se pensarmos bem, que dor é?). Até nisso sou uma farsante. Totalmente fora de moda essa coisa século XIX de artista-gênio-louco-incompreendido. Sem contar que existe sempre a possibilidade apenas da loucura. Ou nem isso. Algo muito pior e mais amedrontador: a mediocridade.

Acho que não tenho amigos (pobres amigos que lêem este blog e ainda têm que agüentar esse tipo de insinuação!). Sempre achei que nunca tive amigos, que estou sempre sozinha. Talvez porque eu exija dos meus amigos um ideal de amizade total e absoluta e irrestrita totalmente impossível. Assim como eu exijo dos meus amores. Assim como eu exijo de mim mesma. Sofre-se muito sendo assim. Mais ainda por saber que é um sofrimento absolutamente desnecessário. Mas como se muda a chave, como se desliga o botão, onde é que fica a saída? Às vezes é mais fácil deixar no piloto automático.

E eu não tenho paciência. Pras coisas. Pra nada. Pra muito pouco. Pros meus amigos, pra festas...mas não é nada pessoal, só não tenho paciência. Não tenho paciência nem pra mim mesma.

O que me mata e me consome dia a dia é essa sensação de meio do caminho. E eu me recuso a tomar um caminho só porque ele é o mais fácil e o mais trilhado. Ainda que eu fique olhando pra ele e pensando se não teria sido melhor tomá-lo.

As pessoas a minha volta tem empregos, ganham o dobro de mim, tem carro e todo o pacote que pode incluir ou não filhos, casamento e bla bla bla. E eu penso que eu não quero nada disso se o preço for trabalhar numa empresa de 9 às 17 e num casamento que simplesmente foi porque era o rumo a ser tomado. Não mesmo. Nunca mais quero trabalhar numa coisa que eu não acredito. O problema é que, cada vez mais, eu acredito em muito pouca coisa.

E por que as opções têm de ser isso ou aquilo? Por que não se pode ter tudo? Porque não se pode ter tudo. Tá bem, eu negocio algumas coisas em troca de outras, que tal? Com quem eu falo? Me chama o gerente, o síndico!! O problema é não saber o que dá pra negociar em cada momento e o que é absolutamente inegociável. Algumas coisas eu sei. Emprego bosta é inegociável. Mas e filhos, por exemplo? Dá pra negociar? E aí será que as outras coisas não se tornarão negociáveis, como o emprego bosta? Será que vale à pena? E se for ter um pai da criança bosta? É melhor do que inseminação artificial ou adoção? E se a vida passar e se tudo passar e eu não passar de uma promessa? Terão valido à pena as minhas escolhas?

Mas algo em mim também diz que é por aí e que eu tenho que ir em frente, doa a quem doer, do jeito que eu acho certo, do meu jeito, do jeito que eu sei e posso e consigo. E quando eu consigo seguir este “algo” ele passa a ser, por si mesmo, o fim de tudo e não apenas o meio.

As pessoas – algumas – dirão que eu estou me expondo muito. Bom, o artista é isso, é alguém meio cobaia, alguém que se expõe mais do que os outros (apesar de eu achar que todo mundo é artista potencialmente). E quem disse que você é artista, disse o leitor ali do canto, fumando um charuto. Eu disse. E a única coisa que pode interessar ao outro é o que eu tenho de mais meu, ainda que eu não saiba colocar em palavras. Porque todo mundo tem um pouco disso também. Só que algumas pessoas simplesmente não querem nem ouvir. Outras não só precisam escutar como falar e gritar se for possível. E nem isso será suficiente.

E sei lá. Eu sou tão legal e tão normal e tão saudável...eu olho pro lado e vejo tanta gente louca...(claro que o louco nunca se acha louco...)

Mas é claro que absolutamente tudo isso pode estar errado.

Foda-se.

6 comentários:

Ila Fox disse...

Carrie, gostei do seus post, me indentifiquei até demais com ele, e por isso copiei e colei na minha pastinha de textos legais que leio em cada blog.

Não consigo falar mais nada, você já disse tudo.

Linda Blair, possessa disse...

Carrie, Carrie...meu anjo! O q falar sobre vc?? Vc já sabe tudo o q eu penso sobre isso.

Espero q passe.

Vc sabe que eu sou possuída pelo demônio, mas eu te amo.

Bjs

julie disse...

a genialidade raramente é reconhecida em vida, por isso é que existe um monte de gente com a alma poética em empregos totalmente pragmáticos (afinal, o cabra não veve, né?). admiro sua poesia e sua coragem. FORÇA NA PERUCA!

Jussara disse...

Carrie, tb me identifiquei com esse post... a questão dos amigos, de achar que não os tenho, mesmo tendo(tenho mesmo?rs); as questões emprego X filho X casamento... o preço que se paga por cada um deles... o preço que vejo as pessoas pagando por eles... os casamentos falidos que vejo ao meu redor...e o preço que as pessoas pagam pra continuarem neles...
E eu tb sou tão normal e tão saudável,rsrrsrs. E é isso,vc já disse tudo, nem tem mto o que comentar.

PS: não consigo encontrar o post onde vc respondeu pra mim sobre seu cabelo;eu li, mas não deu tempo de responder,e agora não encontro; será que tô ficando louca?rsrsrs.

Carrie, a Estranha disse...

É pq já tá arquivado, não tá mais nessa pg inicial. Vc tem q clicar no mês de dezembro. O título do post é "nada a ver com nada".
Bjs

Carrie, a Estranha disse...

Jussara,

Momento Pequeno Príncipe: vc quer ser minha amiga?

:o)