segunda-feira, dezembro 11, 2006

A dura vida social do interior


Visualizem a cena: Gotham City, sexta feira à noite, eu e Formiga Irmã sentadas no boteco Bomcalhau (sim, leitores! Trocadalho do carilho...). Esse boteco fica quase em frente a um parque/jardim e bem no centro de VR. Tomamos um chopp Mistura Clássica (era Mistura Fina, mas tiveram que trocar de nome, porque a casa de shows do Rio protestou), made in Steelcity, delicioso por sinal - como TUDO, aliás, que vem daqui - quando começamos a notar um estranho fenômeno de hordas de adolescentes chegando, todos vestidos de preto. Show de rock? Ritual satânico? Massacre à la Columbine? Não. Eles apenas andavam, andavam e andavam. O mistério crescia.


Pegamos o carro pra ir embora e pudemos observar com mais propriedade o fenômeno. Alguns faziam um footing pelo parque, quase uma coisa meio 1900 (fazer avenida, como mamãe fazia no tempo dela). Outros se sentavam com violões em rodinhas. Casais de namorados trocavam afagos. Todos de preto. Todas as meninas de all star preto cano longo. Todos os meninos de cabelos compridos e blusas de banda de rock. Invariavelmente carregam garrafas de vodka ou conhaque.


Fantástico! Eles estavam apenas, na falta do que fazer, numa sexta à noite, em Voltão, onde as opções são quase zero, enchendo a cara, como milhares de adolescentes fazem. É quase Londres! Somos ou não somos a Manchester do Vale do Paraíba? Ou uma Seatlle pré-grunge? Isso o Mário Sérgio não cobre, né? Isso seria possível numa cidade como o Rio? Não! Primeiro que você fica sem seu fígado se deitar num parque público à noite (não que VR seja tão tranqüila assim, mas ainda não é o Rio, é um parque no meio da cidade, ainda eram umas 8, 9 da noite...). Segundo que a juventude dourada só vai pra praia, pra boate ou pra rave.



(Fiquei pensando que a minha adolescência teria sido mais feliz ali do que no clube de gente rica da cidade, onde eu era obrigada a chocar a burguesia com atos depravados como vomitar no meio do salão, criar coreografias esdrúxulas com Primo Poeta e nadar de calcinha e soutien com Fló e Antovani num baile de formatura. Bons tempos. Ah, pensando bem, era muito mais engraçado, né?)


Essa é a diferença de quem nasce no interior. A gente é obrigado a ter criatividade. Ou ser alcoólatra. Não dá pra fazer muita coisa mesmo.

No dia seguinte fui ao cinema do shopping assistir Pequena Miss Sunshine. Sim, a província também tem bons filmes. Fui ver de novo, com Formiga Sis. Vocês não fazem idéia do que seja um shopping numa cidade de interior às vésperas do Natal. É muito pior que o Rio Sul. É o único grande shopping da cidade. Uma cidade sem praia. Aí depois de ver a terceira menina loura, de bermuda, blusinha bufante e acessórios da novela das oito você pensa que a galera que toma vodka no parquinho tá mais que certa. Tudo bem que eles também são todos iguais. Mas pelo menos não estão com aquela música bate estaca na cabeça, se acotovelando na praça de alimentação em busca de um chopp.


Fomos ao Bela Vista depois disso. Bela Vista é o nome de um bairro – por motivos óbvios - e também de um Hotel que existe desde a fundação da CSN. Em função disso, ele ainda preserva a arquitetura da época. Então imagine, cara leitora, um hotel tipo o Overlock (o hotel do filme O Iluminado), cujo ótimo restaurante fica aberto ao público, num lugar super agradável – siiiiim, Volta Redonda não é apenas cinza e fumacenta, tááá? – e baratéééésimo? Trinta reais, numa noite, pra duas pessoas (15 pra cada) é muuuito barato!

Mas, como VR é sempre VR não pode negar suas origens. A breguice impregna nossos seres de aço desde o berço. Esse local também é cenário de noivas que vão tirar fotos pros seus álbuns, devido ao fato de ser um local bonito etc. Ontem tinham 3 noivas tirando fotos. Três! Como se não bastasse, chega o time do Voltaço inteiro. Eles estavam concentrados ali e depois o do Fluminense. Sem contar uns 15 conhecidos da época do colégio. Uns com filhos, outros que nunca me cumprimentaram e resolveram me cumprimentar agora, uns que eu não lembrava o nome...

Dá uma vodka e chega pra lá que eu quero sentar na grama também!

14 comentários:

Alexandre Avelar disse...
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Alexandre Avelar disse...

Já contei nove noivas numa noite no Belão, Carrie. Parecia casamento coletivo. Depois de ver aquilo, só aproveitando os preços baixos para tomar todas.

Celso disse...

Carrie,
Conta meu padrinho que a violência lá tá insuportável, tendo de tudo, desde assaltos a sequestros relâmpagos. Você confirma ou é exagero de idoso?
Lembro que na última vez que lá fui, estava eu na casa do meu padrinho e no período de poucas horas a campanhia tocava a todo momento com pentelhos pedindo dinheirinho. Eu não queria dar, mas meu padrinho disse que se não der, eles tacam fogo no jardim, essas coisas. Ele mora numa rua de casas bem bonitas.

Ila Fox disse...

Carrie, na sua cidade do interior pelo menos tinha shopping e cinema né? agora em "Saint Cross of the Brown River" não tem nada disso, tínhamos que nos contentar com barzinhos que abriam, lotava de gente na rua (o dono do barzinho devia ficar puto pq o não povo consumia quase nada). Aí quando a galera enjoava do barzinho voltava para a avenida (sim, lá ainda rola disso também).

E não vou nem comentar sobre o padrão das meninas que saiam por lá né? isso por que as mais ricas e bem vestidas iam de carro para "Little Golds" onde rolava as melhores baladas, então em "Saint Cross" só sobrava copo sujo mesmo.

Ufs, ainda bem que eu era uma adolescente estranha que preferia ficar em casa desenhando e tomando Toddynho.

jh disse...

tenho uma teoria de que o interior, a margem, a periferia têm essa fumaça de tédio que abastece figuras e comportamentos típicos.

não que o centro não tenha, mas talvez dilua mais no anonimato, no espaço fechado.

quem não conhece os chapados numa cidade de interior?

quando não se está muito bêbado, dá até pra contar nos dedos...

abs/bjs

Pierre Vieira disse...

Só faltou dizer se torce para o voltaço, se sua conta parou em R$ 15,00, se a vodka foi da boa e seus os filhos de seus conhecidos educadamente gritaram: Dinda, dindinha.

Cláudio Vianna disse...

Mas você não viu gêmeas macabras nos corredores não, né? Ou viu?!?

Carrie, a Estranha disse...

Alexandre,

Sim, vc sabe do q eu estou falando!

Celso,

Tem violência, sim. Mas acho q seu padrinho viajou um pouco. Tem isso aqui, não, de ameaça de por fogo...

Ila,

De onde vc é mesmo? Santa Cruz do Rio Marrom? Rio escuro?? Rio preto? Peguei, não.

JH,

Só não entendi se vc acha isso bom ou ruim. Ou se não vem ao caso.

Acho q é bom, né? Ou os dois...

Pierre,

O Voltaço é o único time q ainda me faz mover as sobrancelhas e esboçar um leve sorriso qdo se trata de futebol (e isso é muito, já q nem a seleção consegue isso de mim).

Sim, minha conta parou em 15! O q vc há de convir q, comendo do bom e do melhor e bebendo Boêmia, é bem em conta pra uma noite!

A vodka devia ser vagabunda.

Se me chamar de Dinda eu dou cocão.

Cláudio,

Eu já vejo gêmeas macabras por todos os lugares. Aliás eu devo ser uma delas.

O banheiro é daqueles enormes, com torneiras anos 50, louça antiga...só faltou nevar!

Bjs/Abs a todos.

Ila Fox disse...

Carrie, eu sou de Santa Cruz do Rio Pardo, hehe, mas a 5 anos estou morando em "Little London" no Paraná.

Carrie, a Estranha disse...

Ah, q legal! Eu já fui em Londrina e gostei muito.

Jussara disse...

Que barato esse post,rs.

Ila Fox disse...

Ah que legal que você já esteve aqui!

jh disse...

resposta que não vem ao caso: isso é bom!

Cris disse...

que tédio que nada, isso aí é mais movimentado que nikity city. ah, e o povo das colunas sociais daqui é podre. trabalhei com umas peruas que davam aulinha de "ingrêis" pra comprar os alfinetes, porque eram senhouras bem-casadas, não dependiam daqueles caraminguás pra sobreviver (tipo eu) e só faziam aparecer nas coluninhas. acho que eu também não sou desse mundo que, pro meu gosto, tá um bocado estranho, viu...