terça-feira, outubro 17, 2006

Carrie também é Lair Ribeiro!


I

Hoje aconteceu uma coisa, no mínimo, curiosa. Tenho uma amiga que tem uma amiga que trabalha numa grande empresa de comunicação. Essa pessoa tá procurando histórias de pessoas entre os 20 e 30 anos que se encontram perdidas profissionalmente, para uma matéria. Pessoas que trancaram faculdades, desistiram, fizeram várias coisas e tão aí, na luta. Aí essa minha amiga se lembrou de mim – dúvidas existenciais profundas desde o maternal; desde os 16 anos sobre o que fazer; “n” opções de vestibular; dois trancamentos; uma transferência; uma desistência de uma faculdade sem nem cursar; curso de teatro e por aí vai. Minha surpresa foi quando essa amiga da amiga disse que eu poderia ser a história da pessoa que deu certo nessa busca. A matéria teria o lado dos “perdidos” e dos “achados”. Eu estaria entre “os achados”. E poderia dar dicas – hahahah – pras pessoas sobre como “se achar”.

Nem sei se vai rolar mesmo a tal matéria, ou pra quando seria, mas achei muito engraçado e voltei pra casa pensando em como são as coisas. De maneira alguma eu acho que eu estou “achada” – mesmo porque não sei o que é isto, não sei se existe e não tô nem um pouco interessada em saber. Mas sem dúvida se alguém me dissesse que eu seria vista como “um bom exemplo” há uns 10 anos atrás eu teria uma síncope de tanto rir. Porque durante muito tempo na minha vida meu objetivo era conseguir levantar da cama e ver o dia terminar. O resto era lucro. Eu sobrevivia. Ser feliz era um luxo que eu acreditava que não teria acesso. Mas tudo bem. Só queria que parasse de doer o tempo todo tudo muito. E parou? Vocês devem estar se perguntando. Não importa. O que importa é que hoje eu consigo andar e não ficar só parada.

Aí fiquei pensando: eu teria realmente alguma coisa pra dizer? O que eu diria? No que minha experiência poderia servir pra alguém? Como uma pessoa que, há dez anos atrás, via seu futuro como alguma drogada, alcoólatra, largada, louca, sem emprego, passando fome, vivendo de restos nas casas de amigos e parentes – sim, eu sou trágica e pensava nisso tudo –, pode falar pra alguém que esteja passando pelo mesmo problema? Talvez a única certeza que eu tenha hoje é de que não existem certezas. Pode parecer meio lugar comum, mas uma coisa é saber, outra é sentir na carne. A verdade é que o chão some o tempo todo!! A busca nunca termina – e isso é bom, pois se terminou, você está morto. Quando você achar que está tudo certo, que “se achou”, que a vida vai seguir linearmente, se prepare, pois seu chão pode se abrir a qualquer momento. E as coisas voltam. E você acha que não saiu do lugar. Mas na verdade saiu.

Aí entrei numas de “entrevista imaginária”. Sem querer parecer presunçosa, pois, como disse, acho que não sou modelo de porra nenhuma - ainda não tenho um emprego estável e...enfim, deixa pra lá - mas tendo em vista o quanto eu caminhei, acho que poderia, sim, falar algumas coisas pra pessoas que estão passando por coisas que eu passei e ainda passo. Justamente por ter sido e ainda ser assim. Me interessam os perdedores. Os vencedores já tem gente demais pra se preocupar com eles.

O que eu diria, então? Bom, em primeiro lugar: não se conforme. Trabalho não foi feito pra ser chato. Meu pai, que foi pobre, muito pobre, sempre dizia isso. Ou então arrume algo menos insuportável e tenha algum plano a médio e longo prazo. A vida é curta e a gente tem que ser feliz.

Em segundo lugar: saia tentando. Faça um monte de coisa. Na dúvida, tente. Como diria Bob Dylan, “quando você não tem nada, você não tem nada a perder”.

Em terceiro: não se traia. Não minta pra você. Se você não sabe qual é a SUA verdade, sente e chore. Fique sem dormir. Grite e esperneie. E procure. Só não saia por aí rindo e dizendo ao mundo que descobriu quando você mesma sabe que não é verdade. Pode ser que você seja vista como maluca, depressiva, inconformada, mimada, filhinha de papai...so what? Que se foda. Só se olhe no espelho à noite e diga: é, tá uma merda, eu sei, mas a gente vai tentar outras coisas.

Em quarto: não ache que sua vida será resolvida no vestibular. Ou aos 30 anos. Ou aos 50. Tudo muda o tempo tooodo no muuuuundo.

Em quinto: quem você pensa que é pra achar que não pode errar? Você não é nada. Isto posto, pode tentar tudo.

II

Fiquei pensando em pessoas como a Joana, que vem sempre aqui e eu nem conheço pessoalmente, mas já gosto; na Maria Eduarda, idem, que anda meio sumida porque está na Venezuela, mas tá sempre por aqui e sei um pouco das angústias profissionais das duas. Garotas de 26 e 22 anos que acham que estão velhas pra fazer outras coisas da vida. Falo dessas duas porque são pessoas que comentam aqui sobre esse assunto e acho que não ficariam chateadas de eu citá-las. Mas penso também em um monte de amigos/primos/conhecidos/parentes. Pessoas que estão tateando e algumas que simplesmente desistiram de buscar. Ou não sabem onde procurar. Aliás, nem sabem que estão perdidos. Penso em todas essas pessoas incríveis e talentosas; algumas bem mais velhas do que eu, outras da minha idade ou mais jovens. Tipo assim: se não for hoje, amanhã vai ser pior. E amanhã vai ser pior do que hoje, mas melhor do que depois de amanhã e assim sucessivamente. Só sei que a vida é sua, só sua e ela tá passando. Achar que tá muito velho(a) – ainda que você tenha 80 anos – não vai melhorar em nada. A tendência é você ficar cada vez mais velho. E qualquer dia que você resolva mudar e fazer algo que acha que precisa fazer é o momento certo.

III

Tem outra história que eu queria contar aqui. É a de Formiga Sister. Espero que ela não se importe – se importar eu tiro. Ela nasceu pra ser professora. Dava aula pras bonecas dela, de uma às cinco da tarde, em casa. Tinha diário de classe e tudo. Me ensinava um monte de coisas – sobre a escola e sobre a vida. (Vou escrever um livro As coisas que aprendi com minha irmã). Formiga Sis é dessas pessoas que explicam as coisas de tal forma que você entende tudo. Tem calma e paciência. Fez curso normal e passou pra faculdade de Letras aos 16 anos. Trabalhou como professora mais dezesseis. E aí cansou. Percebeu que se continuasse ia ficar maluca. Largou vários empregos e foi fazer psicologia. Em outra cidade (claro que nada disso foi assim rápido e fácil). Pegava sua van, seu ônibus ou seu carro e ia pra Resende, pois era a cidade mais próxima de Volta Redonda que tinha psicologia. À noite. Via Dutra, amiguinhos. Uma pessoa morre por dia na Dutra de acidente. De segunda à sexta. Chegava em casa meia noite, uma hora. E ainda mantinha empregos em VR. Cinco anos. Depois fez mestrado, aqui no Rio. E eu duvido que ela não se transforme numa ótima psicanalista, ainda que hoje as coisas ainda estejam difíceis pra ela. Mas o que ela podia fazer? Continuar e surtar? Nada significa que ela esteja livre do surto. Mas pelo menos é uma tentativa.

IV

Ainda com relação a esse assunto, minha professora dizia na aula de hoje: o que deveria mover alguém numa pesquisa de mestrado ou doutorado é a angústia. Só diante da angústia você produz. E a angústia tem que ser sua, sua, apenas sua, unicamente sua. Não porque é o mais importante ou o que você já estuda há tempos. Mas porque é algo que te diz. É uma pergunta sua. Quando a pergunta não é sua, não dá. Aí neguinho surta e entra com atestado de psiquiatra. Porque fez o que os outros queriam.

Aí ela citou o exemplo de pessoas – grandes cientistas – que, quando perguntados como chegaram aonde chegaram, dizem: na verdade desde criança eu me preocupei com A, B ou C. Se você parar pra pensar é verdade. Não é que desde criança que eu queria ser doutoranda em história, mas desde criança eu tenho interesse em algumas coisas que se mantiveram. Mesmo que você vagueie por campos opostos, pense: o que se manteve? Pode ser uma centelha. Pegue essa centelha e transforme num incêndio. E queime tudo até a última ponta.

V

A verdade é que a vida é dura. Pra alguns mais, pra outros menos. Mas quem disser que não é dura, ou está mentindo, ou é muito novo ou muito burro. A experiência de estar vivo é, por si só, dolorosa. Então, saiba que não dá pra ficar sofrendo num trabalho, mas por outro lado, mar de rosas não existe. A grande diferença é se você consegue encontrar prazer, mesmo na dor ou aquilo é insuportável o tempo todo.

O problema, como eu sempre falo aqui, é que a gente vive num mundo de Caras e Quems, onde todo mundo aparece feliz, sorridente, fazendo propaganda de leite desnatado e sempre já-recuperado-da-última-crise. Ninguém aparece sangrando. A gente aprende que vai crescer, ter uma profissão, casar, ter filhos e envelhecer ao lado da lareira (sim, porque é um sonho colonizado) e de netinhos. E se você não é assim ó, você é um anormal. Ainda que a Pitty cante seja você, mesmo que seja bizarro, ela é magrinha e tem cabelinho lisinho. Só que somos todos anormais, amiguinhos. Todos. Somos todos Carrie, a Estranha. A vida é feita de pessoas que sangram. E mesmo assim eu também quero ser magrinha. Porque eu não sou perfeita. Nem minha imperfeição consegue ser perfeita.

Tinha um professor na época do teatro que citava uma frase do Antunes Filho, diretor, que era: “Coroa o teu pior”. Nunca esqueci disso. O meu pior é o meu melhor. E talvez seja só o que me salva.

VI

Como diz Formiga Sister: a vida é feita de escolhas. E toda escolha tem seu preço.

Quer pagar quanto, caro leitor? Num guenta bebe leite. Num quer brincar, num desce pro play.

VII

Bom, provavelmente se eu dissesse tudo isso num veículo de comunicação de amplo alcance nêgo ia me cortar pela metade, né? Por isso eu amo blogs e amo a internet. É como diz o Oasis: so I start a revolution from my bed. É disso que eu tentava falar. Na dúvida, do it yourself, como os punks, mas acima de tudo do it for yourself. Afinal, se você não fizer, ninguém – mas ninguém, mesmo - vai fazer por você.

VIII

Vigilânticas:

Emagreci 600 gramas. Êêê!!! Iupi! Tá ótimo! Viva eu!

E a mulher do meu amigo? Não foi.

15 comentários:

Anônimo disse...

Oi, vc nao me conhece, mas eu emagreci 700 g essa semana, completando 16.7 kg. Persista amiga vigilantica!

Pri

Anônimo disse...

For,

Belo texto...Acho que ele será levado ao CES ao lado do de semana passada...rsrs
Parabéns!!!!!
Te amo sempre!
Bi

Carrie, a Estranha disse...

Oi, Pri! Legal, cara! Valeu pela força! Tendo em vista q a média é de 500g, tamu bem!

Fuuuu,

Tiii amooooo!

roberta carvalho disse...

Oie,

adorei o texto. Penso mais ou menos assim também.

Agora sobre a semana Vigilante, parabéns! Ai, acompanhar sua saga VP tá me animando a voltar. Vc freqüenta reunião onde? Eu era da Alcindo Guanabara, quintas na hora do almoço.

Eu seria tão mais feliz com menos 6kg...

Beijo

Carrie, a Estranha disse...

Já fui na sede da Alcindo Guanabara. Centro, né?

Vou na Sao Clemente.

Sim, vamos formar um núcleo vigilântico-blogueiro! A VanOr já vai e a gente volta caminhando - menos hoje q ela foi vender a cadeira ergonômica.

bjs

Ione disse...

Nossa, adorei o post. Venho sempre aqui, mas hoje queria dar um alô. Me indentifiquei, ó. :)
Fiz administração, parei, comecei jornalismo, tranquei, transferi pra UFF, fizeram greve, me mudei pra Viena e comecei tudo do zero. Aos 26 anos....
Beijos!

VanOr disse...

Carrie, a coisa mais estranha é você não se perceber como um modelo de sucesso. Como diria MM, o mundo é muito estranho mesmo: precisa um completo desconhecido entrar na sua vida pela internet pra te revelar, na frente da Igreja dos Vigilantes do Peso, essas coisas que sua mãe já nasceu sabendo! ;)

Carrie, a Estranha disse...

Oi, ione!

Q bom q esse post fez vc se revelar mostrar sua carinha! E que bom q as coisas estão dando certo!

Um super beijo

VanOr,

Hahahahahaha!!! Vc é uma figura! Na frente da Igreja! Hahahah. Adorei.

Ah, cara...é a tal da ilusão biográfica, né? Tipo: isso são explicações que a gente forma na cabeça...sei lá.

Espero q a Joana passe por aqui.

Bjs

M.Eduarda disse...

Querida, tenho certeza de que você deveria dar essa entrevista e se eles te cortassem pela metade seriam uns loucos, pois ele expressa realmente toda a angústia pela qual passamos no momento das escolhas. Eu acho que é uma enorme sacanagem colocar um adolescente de 17 anos para escolher o que fazer pro resto da sua vida. Acho que é essa imaturidade que faz com que tenhamos escolhas tão ruins ou que optemos por fazer aquilo que A, B ou C indicaram.
Eu ainda estou tentando com o Direito. Larguei o estágio e optei pelo concurso público, mas é como eu sempre digo lá no blog. Não abandonei de forma alguma a possibilidade de uma nova profissão. E vamos ver no que vai dar, não é mesmo?

Mudando de assunto, sexta vou ao médico, fazer uma bela de uma dieta.. como eu quero perder 5 quilos ai ai!

beijos

Carrie, a Estranha disse...

Pois é, Duda, mas é como eu digo: não tem q ser pra sempre! Não mesmo.

Joana disse...

oi carrie.. nossa, adorei seu texto..! fiquei aqui pensando achando um jeito de comentar, porque me deu vontade de falar tantas coisas.. eu sinto muito isso tudo, especialmente a parte de levantar de manha e ir sobrevivendo ate o dia acabar. mas eh meio em fases sabe? tem epocas que eu acho que tudo passou, que ta otimo, ai um dia eu acordo e tomo o maior susto, e fica tudo pior ainda!! mas acho que o que vc falou tem tudissimo a ver, sobre essa busca constante, porque a gente nunca ta 100%, e se parar de tentar ficar, ai eh que fica duro.. e outra, eu tenho pensado muito sobre essa centelha de coisicas que eu gosto, que poderiam muito bem mudar a minha vida se eu investisse nelas com toda minha forca. hoje mesmo tava pensando nisso. foi bom ler o seu texto agora, porque me deu mais vontade ainda de ir em frente com planos malucos. nossa, nao to querendo reclamar da vida nao, sei que tem muita coisa que da certo pra mim, por exemplo quanta gente nao queria ter encontrado alguem que ame, pra viver junto, e essa historia toda? nao to desprezando esse lado da minha vida, de forma alguma, mas as vezes acho que fico so no amor e me contento com muito pouco do resto, tipo ah, ja passei dessa fase de sonhar com uma carreira bacana, ou ah, eu nem sou ambiciosa, posso passar o resto da vida trabalhando em restaurante desde que eu tenha um dinheirinho.. mas a verdade eh que eu nao quero desperdicar minha vida a toa e depois ficar louca quando ficar velha!! ta vendo, sou igual vc, me imagina louca, perdida e largada pelos cantos!!! nossa, deixa eu parar que seu blog nao eh terapia ne? mas valeu pelo texto auto-ajuda, foi especialmente bacana pra mim, porque me identifico muito com vc, e eh bom saber que algumas coisas nao sao e nao devem ser tratadas como completamente hopeless!!

Joana disse...

ps: foi mal pelo comentario gigante!

Carrie, a Estranha disse...

Problema nenhum pelo comentário gigante. Eu já estava estranhando vc ainda não ter comentado nada, já que falei em vc textualmente.

Eu acho q é isso q vc disse. Tb me pergunto, por outro lado, se realmente vale à pena tudo isso já q não tenho ninguém pra amar. Mas aí penso que tudo bem, não dá pra se ter tudo e tenho muitas coisas boas e então tudo bem não ter tudo e só algumas coisas. Sei lá. Vamos pensando sobre isso tudo e conversando e escrevendo e tentando construir coletivamente algo.
bjs

Joana disse...

pois eh, sempre falta alguma coisa... sera que a gente eh muito exigente com a gente mesma?

MM disse...

Carrie, eu adorei as suas palavras e fiquei pensando muito nelas.
Acho que você está muito certa ao dizer que tudo muda, e que a vida não é fácil. Não é mesmo.
Eu tive sorte com a minha profissão, nunca tive dúvidas quanto a isso. Mas, mesmo com um emprego estável, muitos dias acho difícil caminhar, de tanta dor. As desigualdades e as injustiças me chocam diariamente. E eu também queria alguns quilos a menos e um amor companheiro na minha vida.
Além disso, concordo quando você fala que a vida é feita de escolhas, mas acredito também que muitas vezes a vida simplesmente acontece, e as opções que você tem são as escolhas de como lidar com as loucas circunstâncias da vida.
Last but not least, preciso te agradecer pelas considerações acerca da angústia acadêmica. Elas me animaram em direção ao mestrado.